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A casa

Era uma casa muito engraçadasem nota fiscal, grana comprovadaorigem legal ou da empreitadanão tinha teto, não tinha nadaNinguém podia entrar nela, nãoporque a água …

Era uma casa muito engraçada
sem nota fiscal, grana comprovada
origem legal ou da empreitada
não tinha teto, não tinha nada


Ninguém podia entrar nela, não
porque a água saía pelo ladrão
inexplicável do sótão ao porão
porque na casa não tinha chão


Ninguém podia dormir na rede
de investigação havia muita sede
recursos invisíveis que vós vede
porque na casa não tinha parede


Ninguém podia fazer pipi
o cheiro provocava o maior tititi
a descarga desaguava em CPI
porque penico não tinha ali

Mas era feita com muito esmero
com sobras de campanha, é vero?
blablablá, nhenhenhêm e lero-lero
na rua dos bobos número zero

(Sobre letra e música de Vinícius de Moraes)

Nem sempre os clichês induzem a pontos de vista cegos,
tampouco o lugar-comum torna o raciocínio previsível ou o óbvio
não produz conclusões novas. A gente evita formular a partir
de fórmulas, achando que não acharia achados. Nem sempre.

1.
Nem sempre o método afeta o feito: numa só madrugada,
Mary Shelley fez das tripas coração, meteu os pés pelas
mãos, deu passo maior que as pernas e fritou os miolos.
O resultado foi uma obra-prima, ´Frankenstein´.

2.
Nem sempre uma comparação acentua diferenças:
basta pensar na precariedade do tratamento de águas
e na desqualificação de certas vinícolas para hesitar
no uso da expressão “Como da água para o vinho”.

3.
Nem sempre o que é bom para EUA é ruím para o Brasil:
lá, a autonomia pele-vermelha administra o jogo em
suas reservas; aqui, o tutelamento restritivo da Funai
certamente acha que seria muito cacife pra pouco índio.

4.
 Nem sempre repressão é estagnação. Sem as barragens
das hidrelétricas, a piracema seria mais fácil e os cardumes,
mais abundantes. Mas aí a excitação dos peixes seria
igual à dos casais em férias conjugais nas fontes termais.

5.
Nem sempre língua pra fora é sinal de genialidade:
amígdalas inflamadas, má-criação infantil e rigor mortis
por enforcamento também produzem exibições do órgão
fonador, sem importância relativa para virar pôster.

Etc.

Autor

Fraga

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