
O Brasil já enfrentou inúmeros escândalos de corrupção ao longo de sua história. Para o eleitor, os desvios de conduta tornaram-se quase naturais, presentes em diferentes partidos, governos e políticos com cargos eletivos. Aos poucos, consolidou-se a percepção de que a corrupção fazia parte do jogo político e da prática política.
Com o tempo, porém, os escândalos ultrapassaram esse universo. Chegaram ao futebol, com dirigentes de clubes investigados, processados e até presos. Mais recentemente, atingiram órgãos como o INSS, alcançando diretamente aposentados e pessoas em situação de vulnerabilidade social. Nesse caso, a corrupção deixa de ser uma discussão distante e passa a atingir quem depende daquele dinheiro para comprar remédio, pagar contas e sobreviver.
Como se não bastasse, o país vive agora uma grave crise republicana. A expressão pode parecer rebuscada, mas ajuda a compreender a dimensão do chamado caso Banco Master, que alcança discussões e investigações relacionadas aos diferentes Poderes da República. As suspeitas de conexões com outros episódios, inclusive envolvendo o INSS, ampliam a sensação de que os problemas não são isolados.
O eleitor, por sua vez, assiste atônito. Ou simplesmente se afasta das informações, sobrecarregado pelos problemas da vida cotidiana.
A polarização política intensifica esse cenário. Mais de 40% da população teme a eleição de Flávio Bolsonaro, enquanto outro grupo, também superior a 40%, teme a reeleição de Lula. Para uma parcela importante dos brasileiros, a eleição começa a ser percebida menos pela esperança em um projeto de futuro e mais pelo medo da vitória do outro ou dos riscos com o futuro. Temos que entender que o eleitor não está mais preocupado com ganhos, está tentando diminuir perdas.
Ao mesmo tempo, grande parte da população não compreende plenamente o funcionamento das instituições ou o papel de cada Poder e não tem clareza do que é STF. Mas o cidadão constrói percepções. Ele observa notícias, acompanha decisões e percebe quando autoridades, empresários e pessoas muito poderosas aparecem envolvidas em investigações.
É nesse ambiente que cresce uma sensação ainda mais perigosa, a de que a Justiça não funciona da mesma maneira para todos. A velha máxima popular, “para os amigos, tudo; para os inimigos, os rigores da lei”, volta a fazer sentido para uma parcela da sociedade. No cotidiano, isso se traduz em uma percepção simples: quem tem dinheiro e poder encontra caminhos, enquanto o cidadão comum se sente cada vez mais desamparado.
E esse talvez seja um dos maiores danos provocados pela sucessão de escândalos. A corrupção não desvia apenas recursos públicos. Ela corrói confiança.
Quando o cidadão deixa de acreditar nas instituições, não perde apenas a confiança no presente. Começa também a perder a esperança de que o futuro possa ser diferente. Surge a sensação de que trocar governantes pouco altera a realidade, de que as denúncias não produzem consequências e de que participar da política não muda a vida.
A indignação, quando repetida muitas vezes, vira cansaço. E o cansaço pode se transformar em indiferença. Ainda assim, o brasileiro não desiste. Ele acorda cedo, trabalha, cuida da família, enfrenta o custo de vida, espera por atendimento na saúde, tenta pagar suas contas e continua imaginando que os filhos possam ter uma vida melhor.


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