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A criança que ainda me habita brinca nos intervalos do mundo adulto

No final da tarde, no caminho de volta do trabalho para casa, instalada dentro da lotação, costumo repetir brincadeiras que fazia quando era criança …

No final da tarde, no caminho de volta do trabalho para casa, instalada dentro da lotação, costumo repetir brincadeiras que fazia quando era criança e o mundo não tinha pressa nenhuma no meu calendário, lá pelos idos de 1970. Coisas simples e que não exigem nada mais do que concentração. Contar até chegar a hora de descer no meu ponto o número de carros vermelhos que cruzaram o trajeto. Apostar comigo (só para diversão) quantos cachorros estarão passeando guiados pelos seus donos (não vale nas sacadas e janelas). Ou tentar adivinhar se no transporte subirão mais pessoas do sexo feminino ou masculino, mais velhos ou jovens, bonitos e feitos. E todas as pegadinhas mais que eu imaginar.

Assim, penso com o meu notório saber, que encontrei alternativas para que o tempo não seja consumido pelas cochiladas que se apresentam tão tentadoras e insinuantes depois de um dia de trabalho. Ou conforto-me construindo a tese de que não precisei ler um dos livros que ganhei durante o ano no percurso porque com o carro em movimento é comum eu ter dor de cabeça. E com as tais brincadeiras desvio o pensamento das bobagens do dia a dia, como as contas que se acumulam para pagar, a bronca que preciso passar na filha, um desentendimento no serviço, a amiga da Prefeitura que não retornou o telefonema ou a lista do supermercado.

Como sou uma pessoa totalmente desregrada, às vezes, antes de ir dormir, quando o ideal é exercer atividades mais calmas e serenas, costumo fazer o corpo rodopiar, girar, sambar e até mesmo dançar de rosto colado comigo mesmo ao som de músicas dos anos 60, 70 e 80. Despretensiosamente. Desalinhadamente. Descuidadamente. Sem a mínima intenção de dançar conforme a música. Simplesmente ser livre, leve e solta. E, também, sem nenhuma explicação plausível, quando o neto canino Dalai está com jeito enfadonho, tenho a mania de fazê-lo correr pela sala, de um lado a outro, veloz e ofegante, atrás de seus brinquedos de plástico barulhentos (ossos, bolas, sanduíches).

Nas situações acima, alinho uma série de motivações para esquecer os meus 20 e poucos anos (eu acredito nisto) e fazer coisas sem compromisso, sem pressões, sem o medo de ser coerente e correta. Ou é para passar o tempo. Ou para que o tempo não passe. Ou para não ficar pensando nas tais obrigações que a rotina impõe. Ou para exercitar o corpo e soltar a imaginação, mesmo que seja antes de dormir. Ou para que o cusco shih tzu Dalai tenha movimentação até quando está dentro do apartamento.

É tudo blá, blá, blá. Ou como já alertava a música Aquela Coisa Toda, do Oswaldo Montenegro, “a quem é que a gente engana com a nossa loucura”. Desculpas que arrumo para soltar a criança que ainda me habita e brinca nos intervalos do meu mundo adulto. Com a magia adormecida que trago dos meus retratos em preto e branco da infância na Rua Fernando Machado e depois na Mário Totta. Com a ingenuidade que pautou o começo da adolescência e que repousa nos sonhos da menina de sala colegial plissada e meias brancas. E com a melodia lúdica que se fez presente nas cantigas de ninar que embalaram as noites da filha Gabriela Trezzi, da sobrinhada Camila, Rafael e Lucas.

Na semana em que as pessoas nas redes sociais enfeitam os seus perfis com fotos da infância, desejo que todos permitam renascer diariamente a criança que repousa adormecida nos álbuns de recordação, a criança que sobrevive amarelada nos porta-retratos acumulados nos armários das salas de jantar, a criança que vê o adulto vencer as encrencas do cotidiano e depois brinca de esconde-esconde, pula amarelinha, conta as pedras no meio do caminho. Antes que a sua criança envelheça totalmente, convide-a para ser sapeca de vez em quando, para fazer molecagens nos dias de semana, para colorir os murais dos parques nos finais de semana, para adormecer ao som de músicas de ninar. E para habitar todo o dia, nem que seja por poucos segundos, no adulto que vive em você.

Autor

Márcia Martins

Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Escola de Comunicação, Artes e Design (Famecos) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editorias de Economia e Geral, e em assessorias de Comunicação Social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em diversas antologias, ex-diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors) e presidenta do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA) na gestão 2019/2021. E-mail para contato: [email protected]
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