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A crônica do conto ou vice-versa

Na natureza nada se cria nada se perde tudo se transforma. (Lavoisier)   Seguinte: recebi e-mail de uma amiga e, na resposta, para enfatizar …

Na natureza nada se cria

nada se perde tudo se transforma.

(Lavoisier)

 

Seguinte: recebi e-mail de uma amiga e, na resposta, para enfatizar nossa antiquíssima relação, coloquei o seu nome e sobrenome de solteira.

Ela me surpreendeu com esse e-mail:

“Não sabes a satisfação que me deste me chamando Vilma Gama.*

Por breves instantes, voltei a ser eu mesma.

Sou retardada, agora me dei conta disso, obrigada.

Também agora, com mais razão, fico imaginando como se sentiam as mulheres antigamente.

Era normal, mas deviam sentir alguma coisa.

Isso dá um conto.

Boa noite.

V.”

Resolvi brincar com o desafio e mandei o rascunho do texto para ela e depois, pouco modificado, para a publicação.

“Vilma” mandou outro e-mail, agora exagerado:

“Ah, se eu te conhecia um pouco, o desafio pegava.

Só não estou chorando de comoção, de satisfação literária, de alegria pela qualidade do conto, porque preciso lê-lo várias vezes e as lágrimas me impediriam.

É perfeito. Fiquei feliz por teres colocado tua criatividade em ação.

E agora, Vilma irá em busca da identidade perdida? Onde, como encontrar? O que a guiará: experiência, o novo, a concisão?

Serás um autor em busca da personagem?

Ah, entre o céu e a terra… nem a Cartomante** saberia, pois Machado já a esvaziou.

Bjs, Vilminha.”

Publicado, “Vilminha” repicou:

“Bah, eu sabia!

Se já não te conheço um pouco. Procurei a coluna há algumas horas e ainda não havia saído na Coletiva. Obrigada pelo envio.

E não podias deixar de aproveitá-la, mesmo. Reitero que é um primor. Primor nada, é perfeita. E o final arrasou. Fico feliz de ter sido estopim.

Puta merda, boa demais. Só me resta este meio para dizer isto, preferia que fosse ao vivo. Bjs.

V.”

A quantidade de e–mails recebidos parece dar razão à Vilminha.

Aí vão alguns, começando pelo editor de Coletiva, José Antonio Vieira da Cunha:

“Mario, o texto está ótimo, como sempre. Frases como ‘Girou o dial da memória à cata de uma música para cantar’ são brilhantes!”

“Grato, Mario, por mais esta. Sem palavras, pois melhores já falaram por mim.

Eng. José Carlos Pellegrino.”

De Edjobson Pedrosa, engenheiro elétrico, vizinho e companheiro de bocha:

“Gostei muito, penso que você tem um grande conhecimento da ‘alma feminina’. Beleza. Abraço. Bob.”

De Gustavo Borja Lopes, amigo, antigo companheiro de trabalho, profissional de TV:

“Mario, excelente! Abração.”

Da querida teleamiga, Marcia Fernanda Peçanha Martins, colega de Coletiva, no pé da minha coluna, está:

“Resgate gradual – Mario querido, fiquei com vontade de quero-mais. Bjs.”

De Geórgia, 30 anos de amizade, professora de Educação Física:

“Mario, veio a calhar o seu texto. Estou passando por esse resgate, mas sem ódio. Bjs.”

De Mônica, jovem amiga da área de informática, de São Paulo:

“Caríssimo Mario, assim não vale… na mosca! Acabo de retornar ao meu nome primeiro e último. Beijos da Mônica Assunção, ex-Bergamini.”

De mim:

Inté.

*Na verdade, onde está Vilma, coloquei Vera Gomes, conhecimento de 1957, ela professora de Inglês do Colégio de Aplicação de Porto Alegre e eu, naquela capital, dirigindo espetáculos para o Teatro Universitário. Hoje, Vera Veríssimo é psicóloga, poeta, tradutora e eu nem sei o que sou.

**Aos mais jovens que ainda não completaram a leitura da obra de Machado de Assis: “A Cartomante”, conto do fundador da Academia Brasileira de Letras, narra o fim trágico dos amantes Camilo e Rita, enganados por uma charlatã e assassinados por Vilela, o corno.

Aos que chegaram atrasados à coluna anterior, por ser curta, republico:

 

O Resgate

Chegou em casa, foi para a pasta de documentos, apanhou sua certidão de solteira, uma de casamento e juntou as duas com uma outra que acabara de trazer do cartório. Pegou as coisas que trouxera numa bolsa e passou-as para outra pouco maior, mais a carteira de identidade, de motorista, CPF, o talão de cheques e cartões de crédito.

Sentou-se na sua poltrona favorita e, suspirando, foi mentalmente jogando para o lixo coisas que estavam sujando o córtex. Ficou pensando se toda aquela sujeira abstrata ainda teria um lugar no planeta ou seria expulsa do sistema solar por um processo universal e automático de destinos específicos. Sentiu que estava se despindo do mal e se aproximava do Nirvana.

Nirvana, não, pensou. Quem sabe um Nirvana que despoje de tudo, menos do ódio? O ódio, sim. O ódio tinha nome e sobrenome. Sobrenome? Levantou-se, alcançou o telefone, falou com seu advogado, voltou à sua poltrona e suspirou. O advogado confirmara o que teria que fazer, decidiu que seria no menor prazo possível, olhou o relógio, levantou-se e preparou-se para o banho.

Enquanto deixava que a água do chuveiro escorresse livre pelo seu corpo, associou aquele banho a uma metáfora existencial, uma limpeza na vida, a volta a um passado, um passado não-temporal, mas a um passado de sua vida, de outros tempos existenciais.

À vitalidade com a qual esfregava a toalha azul pelo corpo, juntou-se a alegria de perceber que os tempos mal vividos não se incorporaram ao físico; pelo contrário, como combatia a depressão com os exercícios na academia, o mal lhe fizera bem.

Estava nova no exterior e sabia que resgataria tudo do antigo por dentro. Girou o dial da memória à cata de uma música para cantar, mas que expressasse aquele estado de espírito. Deu de ombros, percebeu que há momentos que se bastam.

Abriu o guarda-roupa e escolheu um vestido estampado que não usava havia muito, nem se preocupou se estava na moda; a moda, para ela, atualíssima, era o seu estado de espírito.

Já pronta, apanhou a bolsa com as certidões, as chaves do carro e, ao sair, bateu a porta. Sorriu ao pensar que se dirigia para bater a porta do seu passado mais recente e caminhava em busca da identidade perdida.

Na bolsa, a certidão de nascimento, a de casamento e a do divórcio que, horas antes, trouxera do cartório.

No carro, a caminho do banco, percebeu que nunca dirigira naquela velocidade tão baixa. O resgate total da identidade perdida seria gradual, sabia.

Acelerou.

Autor

Mario de Almeida

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