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A divertida indústria da morte

Por Flávio Dutra

Um previdente amigo, mesmo com a saúde perfeita, já trata de sua última morada, no caso, a sepultura junto ao jazigo da família. O veterano fez contato com uma agente funerária, a fim de se informar sobre condições para um enterro digno, mas sem muita pompa e sem deixar questões para os vivos resolverem. A moça era bem despachada, o que levou meu amigo a questioná-la sobre como fora cooptada pelos serviços fúnebres que, convenhamos, não é emprego dos sonhos de ninguém. 

– Eu era recepcionista de motel, aí me ofereceram um salário bem melhor e aqui estou.

Diante da resposta, o potencial cliente saiu-se com essa graça, um tanto questionável.

– Ah, claro, já estavas acostumada a atender gente deitada.

Soube depois que a moça já partiu para outros desafios profissionais ou “desencarnou” da funerária, em mais um gracejo do meu amigo, acrescentando que, pela especialização adquirida, ele acredita que virou massagista ou está dedicada a alguma outra atividade que exija a clientela em decúbito dorsal ou ventral. No popular, deitado.

Mas não era sobre isso que queria discorrer. Retomando o chamado fio da meada, usei a historinha para mostrar que já não se fazem mais pompas fúnebres como antigamente. Nada a ver com aquelas comilanças a que se assiste nos velórios  dos filmes americanos, mas aqui os pré-enterros eram verdadeiros eventos, varavam as noites na casa da família antes da disseminação das capelas mortuárias. O féretro era levado por um cortejo de veículos, carro fúnebre à frente, até o local do sepultamento. Havia comoção, gestos de solidariedade e orações na passagem da comitiva  funérea. As famílias mais abastadas pagavam por notas de falecimento nas rádios, lidas com voz grave e empostadas pelos locutores, além  de anúncios nos jornais. Autoridades e lideranças empresariais tinham direito à espaço nas capas.

Hoje as redes sociais se encarregam de divulgar os falecimentos e é de graça. Tudo ficou muito simples e rápido, como se os vivos quisessem despachar logo o ente querido, de preferência cremado, para não ter que visitar periodicamente o túmulo, nem pagar as taxas cemiteriais. 

Entretanto, a indústria da morte está bem viva, cada vez mais próspera, indo além das necrópoles e das funerárias e conquistando espaço no mundo do entretenimento. Os streamings têm inúmeras ofertas de filmes e séries de funerais, a maioria do gênero comédia, o que traduz a tendência de tratar com leveza o sensível tema da morte.

Um lançamento recente é a série alemã ‘A Penúltima Palavra’, encontrável no Netflix. A proposta passa por contar histórias diferentes das hollywoodianas e, assim, atingir novos públicos. Falar de morte, do luto da perda e, é claro, da vida, é um caminho para isso, em uma comédia com toques de melancolia, drama e até romance, jamais de tragédia. A sinopse dá conta de que o mundo da personagem Karla Fazius se desfaz quando seu marido morre inesperadamente, após 25 anos de casamento. Para espanto da família ela reage e acaba encontrando uma nova energia em outra vocação: oradora de velórios. Foi quando descobri que na Alemanha até curso e diploma são necessários para desempenhar a função. Suponho até que haja um Sindicato de Oradores de Velório defendendo os interesses da categoria.

E mais não antecipo sobre a história até para  manter vivo, por assim dizer, o interesse nos oito capítulos de ‘A Penúltima Palavra’. Só adianto que, em algumas encomendações, a oradora deriva para a super sinceridade, fazendo revelações sobre o defunto, que contrariam esse preceito do imortal Millôr Fernandes: “A ocasião em que a inteligência do homem mais cresce, sua bondade alcança limites insuspeitados e seu caráter uma pureza inimaginável é nas primeiras 24 horas depois da sua morte”. 

Tudo indica que a série vai ser revivida em uma segunda ou mais temporadas.

Autor

Flávio Dutra

Flávio Dutra, porto-alegrense desde 1950, é formado em Comunicação Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), com especialização em Jornalismo Empresarial e Comunicação Digital. Em mais de 40 anos de carreira, atuou nos principais jornais e veículos eletrônicos do Rio Grande do Sul e em campanhas políticas. Coordenou coberturas jornalísticas nacionais e internacionais, especialmente na área esportiva, da qual participou por mais de 25 anos. Presidiu a Fundação Cultural Piratini (TVE e FM Cultura), foi secretário de Comunicação do Governo do Estado e da Prefeitura de Porto Alegre, superintendente de Comunicação e Cultura da Assembleia Legislativa do RS e assessor no Senado. Autor dos livros ‘Crônicas da Mesa ao Lado’, ‘A Maldição de Eros e outras histórias’, ‘Quando eu Fiz 69’ e ‘Agora Já Posso Revelar’, integrou a coletânea ‘DezMiolados’ e ‘Todos Por Um’ e foi coautor com Indaiá Dillenburg de ‘Dueto – a dois é sempre melhor’, de ‘Confraria 1523 – uma história de parceria e bom humor’ e de ‘G.E.Tupi – sonhos de guri e outras histórias de Petrópolis’. E-mail para contato: [email protected]
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