Hoje, não vou falar das peripécias da minha filha Gabriela Martins Trezzi, que está envolvida, até 13 de setembro, com os mistérios e curiosidades da Índia para um trabalho no colégio. Nem vou contar para vocês sobre as descobertas musicais de minha rebenta para selecionar a música da formatura no Ensino Fundamental. E nem dividir o misto de alegria e susto que me embaralhou, de vez, o côncavo e o convexo, ao saber que serei tia-avó, logo eu tão moça! Perdão, leitores. Não vou falar de flores. É que sucumbi exausta à procura de alguém que deixou de ser manchete definitivamente em 2008: a Dona Ética.
Uma senhora que deveria, rogam os manuais de redação, andar sempre ao lado do jornalista, seja ele um grande e premiado repórter, um foca que recém saiu da faculdade ou um repórter fotográfico. E, de preferência, na hora do sono, que nenhum deles coloque a Dona Ética para dormir no quarto ao lado. Mesmo que seja preciso enfrentar o ciúme do companheiro (a). Nunca se separe da Dona Ética. Sabem por quê? Ela é geniosa, vingativa e possessiva. E, uma única vez sequer, colocada para escanteio, dificilmente aceitará voltar àquele lugar. E nem pense em lhe oferecer algo por fora. Ética e suborno vivem em pé-de-guerra.
Instigada com alguns deslizes protagonizados pela falta de ética nas páginas do jornalismo gaúcho, recorri ao Dicionário Houaiss para reforçar o que me foi ensinado, sim na Famecos, porque sou Jornalista Com Diploma. Lá, no “Amansa Burro”, está dito que ética é um substantivo feminino, logo o fato de ser geniosa, vingativa e possessiva tem alguma razão inerente. Mas, diz também que é o conjunto de regras e preceitos de ordem valorativa e moral de um indivíduo, de um grupo social ou de uma sociedade. E, no Michaelis, que é um conjunto de princípios morais que devem ser observados no exercício de uma profissão.
E cada vez mais esta Dona Ética me parece uma figura perigosa e tênue que se equilibra na corda bamba da vida profissional e pessoal. Porque, como já dizia o Cláudio Abramo, no livro “A Regra do Jogo”, não existem duas éticas, a de cidadão e a do profissional. Se uma pessoa é ética na vida pessoal, ela será ética na profissional. O jornalista, cujo papel é contar para a sociedade as coisas como elas ocorrem com o mínimo de preconceito pessoal, ideológico, racial, político e cultural, sem ter o preconceito de não ter preconceitos, “deve ser aquele que conta a terceiros, de maneira inteligível, o que acabou de ver e ouvir”, afirmava Abramo.
Não existe uma ética específica do jornalista. Ela deve ser a mesma do cidadão comum, do dono da banca da esquina, do padeiro, da empregada doméstica, do artista, do empresário e outros. Mas, como a ética já sofreu arranhões irreparáveis na capa da Veja de 26 de abril de 1989, com a manchete “Cazuza, uma vítima da AIDS agoniza em praça pública”. E foge da memória de quem editou a matéria na Zero Hora, de 7 de agosto, com o título “A nova cara do centro”, que parecia propaganda eleitoral do prefeito atual de Porto Alegre, candidato à reeleição, prometendo algo que já constava do seu programa na eleição passada.
Despudorada e nua, a Dona Ética viu que o mesmo jornal teve que suitar a matéria no dia seguinte e ouvir os demais candidatos. Chateada, Dona Ética leu comentário, cheio de elogios, no 2º Caderno escrito por repórter com familiar trabalhando no evento. Chorando, ela sabe que tantos divulgadores culturais tentam um espaço bem menos nobre no mesmo veículo e escutam que os espetáculos passam por uma seleção isenta (ah, tá!). Desesperançosa, Dona Ética condena a utilização escondida de fotos e gravações para apurar denúncias. Entregando os pontos (não, por favor!), Dona Ética volta mais tarde.

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