Apesar de não perceber nas pessoas de um modo geral, nas escassas vezes em que arrisquei umas escapadas para caminhadas na Feira Ecológica e no Brique da Redenção nos últimos finais de semana, uma consciência do crítico momento ainda protagonizado pela pandemia da Covid-19, resolvi plantar pequenas sementes de esperança. Com a fé de que se eu regar todos os dias com a quantidade de água necessária, deixá-las pegar a luminosidade essencial e falar da importância do florescimento, imagino que a tal da esperança possa chegar, quem sabe até o final de 2021.
Por isso, todas as manhãs, assim que acordo, desloco os pequenos vasos com as tímidas sementes para o parapeito da janela mais ensolarada e mais abusada do apartamento. Lá, meus projetos de esperança ficam o tempo suficiente para acostumarem-se com a rotina de uma avenida barulhenta, agitada, com tráfego intenso de ônibus e passos apressados de quem vai trabalhar fardado com o acessório obrigatório: a máscara. Mais tarde, ao perceber que as sementes já mostram um certo constrangimento com tanta informação, as recolho para um canto mais calmo e tranquilo da casa.
De noite, antes de dormir – e cada vez meu ato de adormecer torna-se mais tardio, em função de inúmeras preocupações que só se acumulam – troco as orações (visto que não sou católica e nem pratico nenhuma outra religião) por conversas animadoras com as tais sementes, que recém mostram alguma intimidade com o meu tom de voz, já mais cansado e fraco ao final do período. Eu lhes explico que precisamos delas, que são fundamentais para um desenho de uma nova civilização, quando o Coronavírus estiver melhor dominado, e que sem elas, será quase impossível recomeçar.
Para não colocar tanta responsabilidade nos seres do reino vegetal – algumas plantinhas me fitam com os olhos escancarados – digo-lhes que parte deste recomeço depende também, e muito, de quanto os habitantes humanos aqui do planeta estarão dispostos a contribuir. Conto-lhes que, afinal, passaram meses experimentando novas sensações, diferentes arranjos familiares, estruturas nem tão fáceis de trabalho e convivência. Mas que nada acontece sem a cooperação de todos os envolvidos e asseguro-lhes que, pelo menos no meu pequeno núcleo familiar, as sementes de esperança que florescerem terão todo o nosso apoio.
E desde que passei a dedicar-me ao cuidado dos meus vasos com sementes de esperança ainda conhecendo o seu pedaço de terra e vendo como elas podem se expandir, confesso que um horizonte mais colorido e otimista passou a povoar meus sonhos. Assim, até acredito que as famílias poderão se abraçar nas festas de final de ano, que os encontros ao ar livre deverão ser incentivados a partir de agora (sem jamais abandonar os cuidados) e que alguns humanos e humanas, quem sabe, aprenderão ao final de tudo, algumas lições de empatia, solidariedade, preocupação com o coletivo e responsabilidade.
Li, em algum lugar, que as sementes de esperança não podem ser adubadas como as outras plantas, que elas não dependem de fertilizantes, nem caseiros e nem orgânicos. Que são diferentes e exigem atenção redobrada de carinho, otimismo, luz, água e muita, mas muita fé em quem está lhes cuidando. Por isso, resolvi tornar nossa interação mais demorada, mais gentil, mais dedicada. Não posso nem pensar em me faltar a esperança.


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