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A esperança nossa de cada dia

Por Márcia Martins

Apesar de não perceber nas pessoas de um modo geral, nas escassas vezes em que arrisquei umas escapadas para caminhadas na Feira Ecológica e no Brique da Redenção nos últimos finais de semana, uma consciência do crítico momento ainda protagonizado pela pandemia da Covid-19, resolvi plantar pequenas sementes de esperança. Com a fé de que se eu regar todos os dias com a quantidade de água necessária, deixá-las pegar a luminosidade essencial e falar da importância do florescimento, imagino que a tal da esperança possa chegar, quem sabe até o final de 2021.

 

Por isso, todas as manhãs, assim que acordo, desloco os pequenos vasos com as tímidas sementes para o parapeito da janela mais ensolarada e mais abusada do apartamento. Lá, meus projetos de esperança ficam o tempo suficiente para acostumarem-se com a rotina de uma avenida barulhenta, agitada, com tráfego intenso de ônibus e passos apressados de quem vai trabalhar fardado com o acessório obrigatório: a máscara. Mais tarde, ao perceber que as sementes já mostram um certo constrangimento com tanta informação, as recolho para um canto mais calmo e tranquilo da casa.

 

De noite, antes de dormir – e cada vez meu ato de adormecer torna-se mais tardio, em função de inúmeras preocupações que só se acumulam – troco as orações (visto que não sou católica e nem pratico nenhuma outra religião) por conversas animadoras com as tais sementes, que recém mostram alguma intimidade com o meu tom de voz, já mais cansado e fraco ao final do período. Eu lhes explico que precisamos delas, que são fundamentais para um desenho de uma nova civilização, quando o Coronavírus estiver melhor dominado, e que sem elas, será quase impossível recomeçar.

 

Para não colocar tanta responsabilidade nos seres do reino vegetal – algumas plantinhas me fitam com os olhos escancarados – digo-lhes que parte deste recomeço depende também, e muito, de quanto os habitantes humanos aqui do planeta estarão dispostos a contribuir. Conto-lhes que, afinal, passaram meses experimentando novas sensações, diferentes arranjos familiares, estruturas nem tão fáceis de trabalho e convivência. Mas que nada acontece sem a cooperação de todos os envolvidos e asseguro-lhes que, pelo menos no meu pequeno núcleo familiar, as sementes de esperança que florescerem terão todo o nosso apoio.

 

E desde que passei a dedicar-me ao cuidado dos meus vasos com sementes de esperança ainda conhecendo o seu pedaço de terra e vendo como elas podem se expandir, confesso que um horizonte mais colorido e otimista passou a povoar meus sonhos. Assim, até acredito que as famílias poderão se abraçar nas festas de final de ano, que os encontros ao ar livre deverão ser incentivados a partir de agora (sem jamais abandonar os cuidados) e que alguns humanos e humanas, quem sabe, aprenderão ao final de tudo, algumas lições de empatia, solidariedade, preocupação com o coletivo e responsabilidade.

 

Li, em algum lugar, que as sementes de esperança não podem ser adubadas como as outras plantas, que elas não dependem de fertilizantes, nem caseiros e nem orgânicos. Que são diferentes e exigem atenção redobrada de carinho, otimismo, luz, água e muita, mas muita fé em quem está lhes cuidando. Por isso, resolvi tornar nossa interação mais demorada, mais gentil, mais dedicada. Não posso nem pensar em me faltar a esperança.

Autor

Márcia Martins

Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Escola de Comunicação, Artes e Design (Famecos) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editorias de Economia e Geral, e em assessorias de Comunicação Social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em diversas antologias, ex-diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors) e presidenta do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA) na gestão 2019/2021. E-mail para contato: [email protected]
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