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A ficção é invenção da memória

Tes  yeux sont si  profonds que j”y perds la mémoire(Louis Aragon)   Há bastante tempo, conversando pelo telefone com meu amigo José Monserrat, cometi  um …

Tes  yeux sont si  profonds que j”y perds la mémoire
(Louis Aragon)  

Há bastante tempo, conversando pelo telefone com meu amigo José Monserrat, cometi  um deslize típico de memória, ou melhor, de falta de memória. Corrigi-me assim:

– Desculpe, estou ficando velho. Peraí, Mon, fiquei velho!

Naquele momento dei-me conta que não só eu, mas aquele discurso também envelhecera. Matei  o gerúndio, já que a memória suicidava-se por conta própria!

Na minha última crônica aqui, saiu que o Shopping Center do Méier foi inaugurado em 1945. Ainda que não tenha sido um erro proveniente da área da memória, é claro que foi a idade que deixou passar esse descuido de digitação ou coisa semelhante. Às vezes, é o telefone que toca numa hora que não devia e os dígitos iniciam uma dança macabra.

Antes que eu percebesse o erro e pedisse a retificação da crônica, alguns leitores deram-se conta, e um deles, meu amigo Edeson (com dois “e” mesmo) Rangel, perguntou, por e-mail, se eu tinha certeza quanto à data.

Ao responder e agradecer, comuniquei que a correção já fora solicitada. E acrescentei que velho não tem certeza de nada: “No velho, tudo é hipotético”.

Por estranha indução, essa antecipada justificativa de erros lembrou-me uma grande confusão etária que vou contar. 

Na época em que o francês ainda era o idioma diplomático e eu escarafunchava o acervo de teatro da Biblioteca Municipal de São Paulo, encontrei, por acaso, uma espirituosa e pequena obra-prima, “Contramão” (Sens Interdit), um ato do francês Armand Salacrou.

Por puro exercício do idioma, resolvi traduzir o texto no qual um cidadão, vindo não se sabe de onde, vivia um ciclo de vida inverso ao nosso, ou seja, nasceu velho e iria morrer ao final de um dia de vida.  

Estabelecido o qüiproquó, da discussão não nasce luz nenhuma, e o invertido personagem, que não é gay, faz a mais instigante pergunta do texto:

– Vocês acham que Deus, na sua infinita misericórdia, iria permitir que a gente, depois de viver a juventude, envelhecesse?

Colocada assim, fora de todo o seu contexto, a pergunta jamais encontrará uma resposta sem a mácula de grande maldade.

Nessa tragédia da velhice apagando a memória, tento um ganho e repito parte do refrão da Canção do Expedicionário, do poeta Guilherme de Almeida, que ainda não esqueci:

“Não permita Deus que eu morra…” sem que a memória apague todos os meus erros.

E agora? –- pergunta um leitor, discípulo intransigente da coerência – o que faz nesta crônica essa epígrafe com um verso de Louis Aragon, uma confissão de perda da memória em “Os olhos de Elsa”?

E eu respondo: essa nossa gradativa perda de memória dá direito a iluminar o que ela ainda guarda de beleza. 

No caso do poema, um lindo paradoxo, pois narra um determinado momento – inesquecível – onde a perda da memória – aquela gloriosa perda – nos prova mais uma vez que só a poesia explica o inexplicável.

Inté.

Autor

Mario de Almeida

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