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A filha que eu pedi a todos os deuses, santos, orixás e oxalás

Nem todas as mulheres são abençoadas com a maternidade. Por inúmeras situações de saúde ou opções pessoais do estilo de vida de cada uma …

Nem todas as mulheres são abençoadas com a maternidade. Por inúmeras situações de saúde ou opções pessoais do estilo de vida de cada uma ou do companheiro. Nem todas as mulheres conseguem conciliar vida profissional, rotina particular, afazeres domésticos e os cuidados com os filhos, sem que um destes itens saia prejudicado. Nem todas as mulheres têm sorte com os seus rebentos, ou porque eles dão muito trabalho nas tarefas escolares, ou porque nascem com problemas de saúde, ou adolescem rebeldes ou até mesmo resolvem seguir caminhos não tão aconselháveis.

Sabe-se lá qual o motivo (Freud deve explicar), mas tenho certeza que nem só fui abençoada com a maternidade, como ele foi feita para mim. Sem tirar um detalhe só. E também tenho a certeza que consegui (aos trancos e barrancos) levar a vida profissional (me considero competente), a particular (fui uma ótima companheira), os afazeres domésticos (ok, não ostento dotes culinários) e o zelo com a filha única e imensamente desejada. E, tive uma sorte invejável (por favor, sem olho grande) porque fui brindada com uma filha que nunca me deu dor de cabeça nos estudos, saudável, com a rebeldia na medida certa e até o momento, caminhando em paz e em harmonia.

Este meu sucesso com a maternidade – que reconheço sem medo de exibir o orgulho ou parecer soberba – deve-se ao fato de que ganhei a filha mais perfeita e exemplar do mundo. Não seria uma boa mãe se a Gabriela não fosse esta pessoa comprometida com a verdade, preocupada com a justiça social e defensora dos direitos iguais para todos. Não seria uma boa mãe se a Gabriela não tivesse atravessado o Ensino Fundamental e Médio com um desempenho elogiável na escola. Não seria uma boa mãe se a Gabriela não confiasse em mim para depositar os seus medos e suas angústias.

A maternidade, em mim, encontrou um abrigo certo porque a Gabriela é hoje uma moça educada, estudiosa, compenetrada e exigente nos seus trabalhos de faculdade e preocupada em ter boa performance nos estágios que já fez. A maternidade foi talhada para mim porque a Gabriela é um exemplo de filha que todos gostariam de ter. Com boa saúde, inteligente, responsável, amiga, linda, comprometida, sensata, astuta, corajosa e desafiadora. Gabriela tem um senso de aventura na medida certa, faz escolhas coerentes, opta pelos atalhos ou trajetos mais iluminados.

Se alguém ao ler a coluna, pode torcer o nariz pensando: “quanta bobagem; ninguém vive assim maravilhosamente ou é tão sensacional”. Pois respondo. É claro que temos muitas DRs, discussões, portas batidas e dias sem se falar. Mas não seria normal se, como todo o relacionamento, a nossa convivência não tivesse estes atritos que fermentam o crescimento pessoal. É claro que a Gabriela, vez ou outra, pisa na bola, mas em situações banais e corriqueiras. É evidente que ser uma boa mãe e se achar o molde ideal para a maternidade fica muito fácil com uma rebenta assim.

Pois no sábado, 6 de dezembro, esta minha Gabriela completou 20 anos. E eu só posso agradecer por este período em que pude compreender, na essência mais real e superior, o que é o amor. E eu só posso elevar meu pensamento, todos os dias, quando acordo, e dizer obrigada pela benção de filha que me foi enviada. E eu só posso dizer que Gabriela é na medida exata o ser mais perfeito que eu já conheci. E eu só posso afirmar que Gabriela é a filha que eu pedi a todos os deuses, santos, orixás e oxalás.

Autor

Márcia Martins

Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Escola de Comunicação, Artes e Design (Famecos) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editorias de Economia e Geral, e em assessorias de Comunicação Social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em diversas antologias, ex-diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors) e presidenta do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA) na gestão 2019/2021. E-mail para contato: [email protected]
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