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A folha e o seixo

Um dos talentos mais perturbadores do Padre Brown, o personagem de Gilbert Keith Chesterton, era apresentar paradoxos em forma de perguntas:

” – Onde esconder uma folha?”

Resposta: ” – Na floresta”.

ou

” – Onde esconder um seixo?”

Resposta: ” – Na praia”.

***

O padre detetive entrou à sua maneira na galeria dos grandes da literatura policial – ao lado de Jules Maigret, Hercule Poirot e Philip Marlowe. 

Sua mais notável qualidade é a de não ser notável, como os heróis tradicionais. Mas aqui se esconde a perspicácia de irlandês e uma refinada ironia. Em seus contos e novelas, o Padre Brown lida com crimes e mistérios que desafiam suas habilidades investigativas. Mas, diferentemente dos detetives famosos criados por Agatha Christie ou Georges Simenon, que buscam identificar, prender e punir o criminoso, ele se preocupa mais em entender qual a motivação do suspeito para cometer o crime, para então obter confissão e arrependimento.

***

Na coletânea “O Segredo do Padre Brown”, talvez a mais profunda e inquietante da série, o leitor acompanha o desajeitado sacerdote do interior da Inglaterra que enxerga o mundo com um olhar poético e místico. Mas que se revela um incansável investigador empenhado em reconhecer e enfrentar o Mal.   Aqui se repete a tese tipicamente chesterniana –  os mistérios que desafiam o Padre Brown não são os que se ocultam nas sombras, mas aqueles que se abrigam no coração humano.  E os delitos mais perigosos são eatamente os que se escondem na nossa consciênia. O que GKC queria nos dizer é que o importante não é a busca do culpado, mas a descoberta da motivação e das culpas profundas, para abrir o caminho para a redenção.

Quando o Padre Brown afirma que para isso ele precisa estar no lugar do assassino para compreender seus crimes, GKC cria outro de seus paradoxos: 

” (…) Procuro ficar dentro dele, ler pensamentos, entender as paixões, me adaptar à sua maneira de ser, olhando o mundo com olhos congestionados pelo ódio (…) encontrar o caminho para um mar de sangue, até me tornar realmente um assassino (…)”.

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Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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