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A franquia do inferno

  Façam um exercício de imaginação e pensem com muito carinho. O que pode ser pior do que uma viagem de ônibus que deveria …

 

Façam um exercício de imaginação e pensem com muito carinho. O que pode ser pior do que uma viagem de ônibus que deveria durar 1h10min, no máximo, e demora mais de três horas? Que tem como sonoplastia uma criança de colo chorando e tossindo, a vizinha da poltrona da frente escutando música no celular sem fone de ouvido? E o cenário é arrematado com uma passageira pedindo para o motorista parar no acostamento e falar com algum familiar para explicar o motivo da demora? E a fome começando a dar sinais de impaciência e a garganta seca por um gole de água? Sempre pode ficar muito pior.

Foi o que ocorreu comigo no domingo à noite, no meu retorno do semi feriado de Páscoa (sim, porque jornalista na ativa nunca tem um feriadão inteiro e eu estava de plantão na sexta-feira santa). Ao voltar da rápida viagem a Butiá, onde mora meu irmão e vou seguido paparicar meu afilhado Lucas, de um ano e dois meses, uma franquia do inferno havia sido inaugurada na Estação Rodoviária de Porto Alegre, mais precisamente na fila para pegar táxi.

Nada menos do que 45 minutos, contados no relógio, aguardei para pegar um táxi na rodoviária na noite de domingo. A fila era a entrada para a franquia do inferno. Ela dava três voltas na calçada da rodoviária, tipo zigue-zague, ocupando todo o local, e terminava lá dentro, onde os ônibus embarcam e desembarcam os passageiros. Simples e eficiente. A pessoa já descia do ônibus e pegava o seu lugar na fila da rodoviária. Mas não podia nem pensar em descansar um pouquinho as malas e bagagens naquele chão muito sujo da rodoviária, porque de minuto em minuto o vivente era obrigado a andar pequenos passos para agilizar a fila.

O incômodo de permanecer na fila do táxi da rodoviária – depois de viagens exaustivas para uns, que voltavam de longe, ou menos estafantes para outros – era agravado pelo organizador da tal fila, que inclusive trajava um uniforme com crachá e tudo e tinha jeito de supervisor da bagunça toda. Não consegui identificar a qual empresa ele pertencia porque fiquei com medo de ser linchada pelo mesmo, depois de ouvir xingamentos porque não quis ficar embaixo de uma parte do teto com goteiras “paramodiagilizar a fila”, informou o cidadão. No entender do supervisor, qual o problema de se molhar um pouco e facilitar o processo “afinal quem está na fila não é pra se molhar”? (acho que errei o ditado).

Compreendo perfeitamente que no retorno de um feriadão, o movimento na rodoviária fuja do normal e que exista uma demanda maior do que a oferta de táxi. Entendo que é necessário alguém para organizar a fila e cuidar para que ninguém fure e se faça de “espertinho”. Mas fico pensando em 2014. Sei lá. Quando a cidade pretende receber turistas de outras partes do País e do Mundo para os jogos da Copa do Mundo, se o estádio do Internacional (ahahaha, comentário de gremista) ficar pronto. Quando a demanda de táxi, certamente, será bem maior do que a oferta, estagnada há muito tempo porque os proprietários dos táxis não aceitam aumentar o número de carros em circulação. Quando as filas serão imensas não só na rodoviária, mas no aeroporto, restaurantes e outros.

Longe de ser pessimista ou alarmista, mas será que Porto Alegre estará mesmo em condições de ser cidade sede da Copa em 2014? Porque são necessárias não só obras viárias e de circulação, mais vagas em hotéis e todos os atendentes falando, pelo menos, um espanhol inteligível. É preciso que estes turistas tenham meios de transporte decentes e que sejam pelo menos eficientes para que não cheguem no estádio no final do segundo tempo. Porque uma estadia na franquia do inverno, ninguém merece.

Façam um exercício de imaginação e pensem com muito carinho. O que pode ser pior do que uma viagem de ônibus que deveria durar 1h10min, no máximo, e demora mais de três horas? Que tem como sonoplastia uma criança de colo chorando e tossindo, a vizinha da poltrona da frente escutando música no celular sem fone de ouvido? E o cenário é arrematado com uma passageira pedindo para o motorista parar no acostamento e falar com algum familiar para explicar o motivo da demora? E a fome começando a dar sinais de impaciência e a garganta seca por um gole de água? Sempre pode ficar muito pior.

Foi o que ocorreu comigo no domingo à noite, no meu retorno do semi feriado de Páscoa (sim, porque jornalista na ativa nunca tem um feriadão inteiro e eu estava de plantão na sexta-feira santa). Ao voltar da rápida viagem a Butiá, onde mora meu irmão e vou seguido paparicar meu afilhado Lucas, de um ano e dois meses, uma franquia do inferno havia sido inaugurada na Estação Rodoviária de Porto Alegre, mais precisamente na fila para pegar táxi.

Nada menos do que 45 minutos, contados no relógio, aguardei para pegar um táxi na rodoviária na noite de domingo. A fila era a entrada para a franquia do inferno. Ela dava três voltas na calçada da rodoviária, tipo zigue-zague, ocupando todo o local, e terminava lá dentro, onde os ônibus embarcam e desembarcam os passageiros. Simples e eficiente. A pessoa já descia do ônibus e pegava o seu lugar na fila da rodoviária. Mas não podia nem pensar em descansar um pouquinho as malas e bagagens naquele chão muito sujo da rodoviária, porque de minuto em minuto o vivente era obrigado a andar pequenos passos para agilizar a fila.

O incômodo de permanecer na fila do táxi da rodoviária – depois de viagens exaustivas para uns, que voltavam de longe, ou menos estafantes para outros – era agravado pelo organizador da tal fila, que inclusive trajava um uniforme com crachá e tudo e tinha jeito de supervisor da bagunça toda. Não consegui identificar a qual empresa ele pertencia porque fiquei com medo de ser linchada pelo mesmo, depois de ouvir xingamentos porque não quis ficar embaixo de uma parte do teto com goteiras “paramodiagilizar a fila”, informou o cidadão. No entender do supervisor, qual o problema de se molhar um pouco e facilitar o processo “afinal quem está na fila não é pra se molhar”? (acho que errei o ditado).

Compreendo perfeitamente que no retorno de um feriadão, o movimento na rodoviária fuja do normal e que exista uma demanda maior do que a oferta de táxi. Entendo que é necessário alguém para organizar a fila e cuidar para que ninguém fure e se faça de “espertinho”. Mas fico pensando em 2014. Sei lá. Quando a cidade pretende receber turistas de outras partes do País e do Mundo para os jogos da Copa do Mundo, se o estádio do Internacional (ahahaha, comentário de gremista) ficar pronto. Quando a demanda de táxi, certamente, será bem maior do que a oferta, estagnada há muito tempo porque os proprietários dos táxis não aceitam aumentar o número de carros em circulação. Quando as filas serão imensas não só na rodoviária, mas no aeroporto, restaurantes e outros.

Longe de ser pessimista ou alarmista, mas será que Porto Alegre estará mesmo em condições de ser cidade sede da Copa em 2014? Porque são necessárias não só obras viárias e de circulação, mais vagas em hotéis e todos os atendentes falando, pelo menos, um espanhol inteligível. É preciso que estes turistas tenham meios de transporte decentes e que sejam pelo menos eficientes para que não cheguem no estádio no final do segundo tempo. Porque uma estadia na franquia do inverno, ninguém merece.

 

Autor

Márcia Martins

Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Escola de Comunicação, Artes e Design (Famecos) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editorias de Economia e Geral, e em assessorias de Comunicação Social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em diversas antologias, ex-diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors) e presidenta do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA) na gestão 2019/2021. E-mail para contato: [email protected]
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