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A fruta do Demônio

Ao regressarem do Novo Mundo, as naus dos conquistadores espanhóis aportaram abarrotadas com inimagináveis tesouros: toneladas de ouro e prata e alguns estranhos vegetais, …

Ao regressarem do Novo Mundo, as naus dos conquistadores espanhóis aportaram abarrotadas com inimagináveis tesouros: toneladas de ouro e prata e alguns estranhos vegetais, nunca vistos no Velho Continente: beringela, batata, mandrágora e uma estranha fruta vermelha, suspeita de ser venenosa e conhecida como “La fruta del Diablo”.

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As cargas produziram lentas mas significativas mudanças na vida e nos costumes dos europeus. Os banqueiros que financiaram as expedições receberam títulos nobiliárquicos e terras do outro lado do mundo. Os delapidados cofres das casas reais se encheram com o ouro, a prata e metais raros. As frutas americanas chegaram às mesas dos camponeses e, dali, para as mesas dos burgueses, curiosos em provar os novos sabores exóticos. Já o fruto vermelho foi recebido com reações tragi-cômicas e pitorescas. Banido pela Igreja Católica, seu consumo foi interditado aos católicos. Para os patriarcas de Roma, a manzana de amor sugeria pecados carnais e seu sumo despertava pensamentos sensuais e até pecaminosos. Pior ainda, havia desconfianças que seria o mesmo fruto proibido que Eva ofereceu a Adão no Jardim do Eden. E, para complicar, os sábios da época lhe apontaram outro peccato – o vegetal era hermafrodita, ou seja, continha em si mesmo as sementes para se multiplicar.

E assim, por mais de um século e meio, maldições e superstições privaram os europeus –  e parte do mundo – de se deliciar com o xitomatl, prazer que os astecas conheciam há centenas de anos.

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Mas, à medida que o tempo passava, os italianos de Nápoles, bem mais aderentes aos prazeres da mesa do que às bulas de Roma, passaram a experimentar o pomo d’oro dos genoveses, inicialmente como decoração       nas mesas e, depois, como molho ou pasta para acompanhar o macarrão        de Marco Polo. E, bem antes que as regras de Roma caducassem, o pomodoro passou a ser ingrediente indispensável na gastronomia mediterrânea.

Esta revolução culinária foi acompanhada de outras novidades que mudaram para sempre os hábitos europeus: tabaco, milho (do qual fizeram a polenta), o cacau e seu abençoado derivado, o chocolate. Curiosamente, por volta de 1700, estes mesmos produtos refizeram o caminho de regresso para a América do Norte, levados pelos pioneiros. E mais uma vez, o pomodoro teve uma carreira acidentada, olhado com suspeitas até o início dos anos 1800, quando tornou-se popular, ao superar a última de suas maldições – a de provocar desmaios em mulheres virgens.

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No século 19, o tomate acaba definitivamente redimido e se espalha pelas cozinhas do planeta em suas incontáveis versões e aplicações.

As superstições, anátemas e bulas ficaram em algum lugar, jogadas no lixo da história. Hoje, seria impossível imaginar um cardápio sem a presença do antigo fruto do demônio. Ou, como sentenciou um amigo cozinheiro, ao preparar saborosas pizzas e calzones:

“ – Sem o pomodoro, morreríamos todos de tédio.”

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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