Eu não conhecia o sentimento de inveja, até o dia em que vi o carro novo do João Eurico. Foi em um 24 de dezembro, quando a meninada da rua se alvoroçava, à espera da hora de abrir os presentes de Natal. Naqueles tempos, as pessoas não decoravam as árvores da rua ou as fachadas das casas com lâmpadas coloridas. Das portas e janelas, abertas para a tarde morna de verão, saiam aromas de leitões, galinhas d’Angola e perus, assados com vagar nos fogões a lenha.
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Ao ouvir a estridente buzina, os meninos na esquina se voltaram. Um pequeno e reluzente conversível vermelho descia a rua de paralelepípedos. Tinha a capota arriada e seu motorista, sorrindo de felicidade, tocava a buzina sem cessar. Os moradores, atraídos pela agitação, chegavam às janelas e corriam para os portões. Encantados com o presente de Natal, que João Eurico exibia com orgulho, para toda a vizinhança.
Eram poucas as famílias das redondezas que tinham automóvel, pois as pessoas usavam o bonde para ir de um lado para o outro da cidade. Aos domingos, chamava-se um “carro de praça” para levar as famílias a um passeio até os campos da Redenção, ou para rodar pelas margens do Guaíba.
Andar em carro particular era um acontecimento, comentado durante muito tempo entre os vizinhos e os colegas no ginásio. Agora, de um dia para o outro, um conversível vermelho mudara de vez nossas fantasias adolescentes.
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Mas João Eurico não era um mau rapaz. Seus defeitos eram ter nascido de família rica, se vestir com capricho, com sapatos de camurça e pullover de cashmere e, ainda por cima, morar no casarão mais bonito da rua.
Mas não eram estas coisas que alimentavam a secreta inveja dos meninos da minha rua. Ninguém esperava por aquele conversível importado, algo que nossos pais nem sonhavam em comprar.
Conhecíamos a hora em que o carrinho vermelho chegava, nos fins-de-tarde. E, morrendo de inveja, nos postávamos debaixo de um jacarandá defronte ao casarão. João Eurico chegava em seu carro novo, abria o portão, entrava lentamente na garagem, fechava a capota e, antes de bater o portão de ferro, ainda abanava gentilmente para nós.
Ele cuidava bem daquele seu carrinho. De macacão branco, passava horas polindo a lataria e os cromados. Da minha janela, eu acompanhava o ritual, esperando um improvável convite para passear de conversível. E, quem sabe, talvez circular pela Independência, na hora da saída das meninas do Bom Conselho.
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Nossa inveja e minhas fantasias não duraram muito. Uma certa manhã, o boato correu de cima a baixo pela rua. Comentavam que João Eurico estava falido – seu sócio na firma de importação sumira da noite para o dia, levando todo o dinheiro do cofre. Por meses, o casarão permaneceu fechado, como que mal-assombrado. Todos os dias, eu passava devagar pela frente da garagem, na esperança de ver o portão se abrir. Mas, depois daquela tragédia, nunca mais vi o conversível vermelho.


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