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A irredenção da Redenção

Passo a passo, o maior triângulo escaleno verde da cidade está virando um saara urbano. Para perceber o que se passa, só cabisbaixando a …

Passo a passo, o maior triângulo escaleno verde da cidade está virando um saara urbano. Para perceber o que se passa, só cabisbaixando a visão.

Passo a passo, passa a população por cima de cada último cm2 de cada derradeiro trecho gramado.

Passo a passo, as mínimas áreas verdejantes, que deveriam ser espaços preservados com o mais simples paisagismo, vão ganhando perimetrais feitas por átilas calçados.

Passo a passo, aquele preguiçoso cacoete de pedestre, o de cortar caminho para não ter que controlar a ansiedade, está recortando o que resta das gramíneas.

Passo a passo, ando por lá e faço o cálculo desanimador: os pés que aparam não vão parar enquanto houver a menor chance de abreviar caminhadas, corridas, passeios, perambulações.

Passo a passo, o que era para ser intransitável recebe o trânsito incessante de sapatos, tênis, botas, coturnos, sandálias, chinelos, pés descalços.

Passo a passo, sob árvores frondosas e arbustos baixos e galhos que tentam impedir a abertura de novas trilhas, avança a desertificação daquele solo que na minha infância, logo ali nos anos 50, era um mar vegetal.

Passo a passo, numa pressa mal pressentida pelos passantes, diminuem as folhas da relva, e ninguém avalia a sua própria participação no pisoteamento desse patrimônio.

Passo a passo, as sobras do tapete do Parque Farroupilha agonizam sob solas, sem folga para a fotossíntese, sem intervalos do massacre esmagador.

Passo a passo, se torna impossível a tarefa da impassível administração municipal, de devolver à paisagem a imagem do passado.

Passo a passo, multidões avulsas rasgam rotas arenosas sobre os restantes nacos verdes, e enquanto circulam, aos pares ou em grupos, deixam no ar conceitos ecológicos e de cidadania, em contraste com o rastro insensível no chão.

Passo a passo, desvio da hipocrisia a trote. Aqui e ali, tufos ainda não amassados se encolhem. Temem os domingos no parque.


Nem todos os objetos de desejo são caros ou têm preço.
A inveja é que inflaciona o sentimento de posse.

Não invejar – que situação invejável!

Os motoristas que ostentam no carro aquele adesivo
a inveja é uma merda devem viver constipados.

Tem homem que, ao ouvir a teoria de Freud sobre
a inveja do pênis, acha que estão falando do dele.

A cobiça – inveja com PHD – é a ambição dirigida ao alheio.

Toda vez que uma situação é vista como invejável,
é porque a situação do observador é desconfortável.
E se ainda não é, fica sendo.

Todo invejoso é classe média, mesmo que esteja
acima ou abaixo.

Invejar – verbo que os cônjuges também conjugam,
mas, por motivos conjugais, não entre si.

Num sistema social injusto, nada mais justo que a inveja.

Etc.

… a TV paga, como concessão pública, é duas vezes mais vergonhosa e tediosa que a TV aberta: além da programação ser o mesmo lixo de cabo a rabo, ainda cobra pela enxurrrada de comerciais que exibe.

Autor

Fraga

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