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A lenta máquina do desamor

“Ernesto Sábato sentava na primeira mesa, à esquerda da entrada, ao lado da janela, onde escrevia o rascunho de ‘Sobre Heróis e Tumbas’. Ali …

“Ernesto Sábato sentava na primeira mesa, à esquerda da entrada, ao lado da janela, onde escrevia o rascunho de ‘Sobre Heróis e Tumbas’. Ali encontrava seus amigos Julio Cortázar e Jorge Luis Borges. Isto foi lá pelos anos 1950”, conta José Maria Trillo, o garção que, por 44 anos, serviu ilustres e anônimos na Confeitaria Richmond, em Buenos Aires.

Se Ernesto Sábato estivesse presente para assistir o desaparecimento   de sua querida Confeitaria Richmond, provavelmente comentaria: “É um ato sinistro voltar a lugares que testemunharam momentos de perfeição.” E seu amigo Julio Cortázar, bem mais fatalista, diria: “Enterra teus mortos e guarda as chaves”, repetindo os versos de “A lenta máquina do desamor”.

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Inaugurada em 1917, a Confeitaria Richmond era um desses lugares predestinados a armazenar a memória afetiva das cidades que têm alma. São determinados cafés, bistrôs, livrarias, abrigados em palacetes com ares parisienses ou vienenses, cada vez mais raros e que estão sendo vitimados pela modernidade e pela cobiça imobiliária. No caso do número 486 da Calle Florida, a agressão não foi apenas contra seu patrimônio de memórias. O fechamento aconteceu em um domingo chuvoso, tomando de surpresa os maitres, garções e funcionários.

Quando eles chegaram na segunda-feira de manhã, encontraram os batentes de latão polido das portas acorrentados e as vitrinas com o nome da casa, borradas com tinta branca.

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Nos anos 20 e 30, a Calle Florida era a passarela dos elegantes de Buenos Aires, que desfilavam chapéus parisienses e casimiras inglesas. Nas cadeiras Chesterfield forradas de couro da Richmond, damas y caballeros aguardavam a hora do Five o’ Clock Tea, servido em bules     de prata, acompanhado de geléias, brioches e croissants.

Ali se reuniam os intelectuais do “Grupo Florida” – Jorge Luis Borges, então com 25 anos, Ricardo Güiraldes, Oliverio Girondo, Leopoldo Marechal e os pintores Alfredo Guttero e Antonio Berni.

A lista dos personagens ilustres – ou imaginários – que frequentavam suas mesas é interminável. Julio Cortázar fez um dos personagens de “Rayuela” circular pelos salões da casa. Antoine de Saint-Exupéry, em suas escalas do Correio Sul, desfilava com seu casaco de couro. Graham Greene não apenas frequentava o café, como o menciona em “O Consul Honorário”.

A progressiva deteriorização do centro de Buenos Aires, afetou a Calle Florida, que assistiu a migração do comércio mais sofisticado para  os novos shopping-centers de Abasto e Palermo. A transformação em passeio para pedestres não ajudou, atraindo pessoas sem vínculos com   seus cafés e livrarias. Em 1988, a Richmond é incluída entre os 50 cafés notáveis da cidade, juntamente com o Café Tortoni, o 36 Billares, o Gato Negro, o Britânico e o La Biela. Foram designados como santuários irremplazables, por seu valor histórico, permanência e arquitetura de época.

Não foi suficiente. Preservou-se a fachada em estilo inglês, projetada  pelo arquiteto belga Jules Dormal, o mesmo que finalizou o Teatro Colón. Entretanto, seu tesouro de memórias e tradição será substituido, sem maiores considerações, por uma grife internacional de tênis e roupas esportivas.

Indiscutivelmente, um objeto de desejo e consumo mais de acordo com nosso tempo do que as velhas mesas Thonet e os lustres belgas, feitos  de bronze e opalina.

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“Siempre he sentido que hay cosas en Buenos Aires que me gustam. Me gustam tanto que no me gusta que le guste a otras personas. El amor por Buenos Aires es un amor muy celoso”.

Jorge Luis Borges.

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Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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