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A Madonna peregrina

Os mármores de Michelangelo Buonarroti configuram um cume da criação humana, assim como as sinfonias de Ludwig van Beethoven, o telescópio de Galileo Galilei …

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Os mármores de Michelangelo Buonarroti configuram um cume da criação humana, assim como as sinfonias de Ludwig van Beethoven, o telescópio de Galileo Galilei e as anônimas catedrais medievais. Em cidades como Roma e Florença, “David”, “Moisés”, a “Pietá”, suas madonnas e escravos, de certa maneira nos devolvem a esperança e a fé na humanidade. Quando o papa Julio II chamou Michelangelo a Roma, em 1505, para projetar seu mausoléu (incluindo 40 estátuas em tamanho natural), perguntou ao artista como ele arrancava formas humanas dos enormes blocos de mármore de Carrara.

A resposta do escultor teria sido: 

” – As figuras estão aprisionadas dentro da pedra.

Meu trabalho é apenas libertá-las.”

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Enquanto vivo, Michelangelo di Lodovico Buonarroti Simoni não queria que suas esculturas deixassem a Itália. Graças a esta teimosia, grande parte delas permanece até hoje em Roma, Florença e Milão, onde são admiradas por milhões de turistas do mundo inteiro, mesmo por quem nunca ouviu falar no grande mestre da Renascimento.

Mesmo assim, após sua morte, algumas esculturas deixaram a Itália e se abrigaram no Louvre de Paris e no Hermitage, em Leningrado. Apenas um dos mármores teria saído de Roma com o consentimento de Michelangelo – ele teria cedido aos apelos de dois comerciantes flamengos, que queriam levar a Madonna com o Menino para adornar a igreja de Notre Dame, em Bruges, na Bélgica. Todas as magníficas esculturas de Michelangelo estão carregadas de ricas lendas e estórias, mas nenhuma teve um destino tão acidentado como a Madonna com o Menino.

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A cidade de Bruges é famosa pelo seu precioso acervo de pintores flamengos, o que deixa um mármore italiano um tanto fora de lugar. Mas a história de como a Madonna chegou a Bruges faz jus à sua aura de obra-prima única. Não está entre as grandes peças de Michelangelo. Tem apenas 128 centímetros de altura e foi esculpida em 1504, logo após a Pietà e quase ao mesmo tempo que o monumental David de Florença, duas das suas mais célebres esculturas. Michelangelo tinha menos que 30 anos e estava no auge de sua fúria criativa.

A figura da Madonna se parece com a da Pietà  de Roma – uma bela e jovem mulher, sentada com o Menino Jesus a seus pés, segurando sua mão, como que tentando evitar que ele se afastasse dela. Mas ela não sorri, como se pressentisse que o Menino não mais lhe pertencia.

Foi a beleza desta obra prima da escultura que cativou os irmãos Jan e Alexander Mouscron, de uma família de mercadores da Antuérpia. Bruges vivia então uma época de prosperidade, como porto de entrada de mercadorias da Itália, Inglaterra e Oriente. Os comerciantes flamengos procuravam obras de arte para decorar casas e igrejas.  Mas os irmãos Mouscron precisaram disputar a cobiçada imagem com o papa Piccolomini, que planejava levá-la para Siena. Em 1506, a escultura finalmente foi despachada para Bruges, doada à Igreja pela familia Mouscron e, mais tarde, instalada em uma capela lateral da Notre Dame.

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Mas a história continua – quase 300 anos depois, os franceses invadem a Bélgica e iniciam o saque de obras de arte, visando principalmente pinturas dos mestres Jan Van Eyck, Hans Memling e a Madonna de Michelangelo. Com a derrota de Napoleão, o acervo de Bruges volta para casa. Mas não por muito tempo.

Em setembro de 1944, as tropas alemãs, em retirada da Bélgica, recebem ordens do Alto Comando (mais precisamente, do Marechal Hermann Göering) para confiscar o acervo dos mestres da pintura flamenga – e a Madonna de Bruges.

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Oito meses mais tarde, em maio de 1945, a II Guerra Mundial estava chegando ao fim, a Alemanha cercada pelas tropas aliadas a Oeste e pelos soviéticos a Leste. Nos Alpes austríacos, o capitão Robert Posey e o soldado Lincoln Kirstein, de um grupo de elite em busca de obras de arte roubadas, entram em uma antiga mina de sal de Altausee. O que suas lanternas iluminam, os deixam sem palavras. A caverna estava atulhada com milhares de quadros, esculturas, tapeçarias e objetos de arte saqueadas pelos nazistas dos grandes museus da França, Itália e Bélgica e de coleções particulares de famílias judias, deportadas ou mortas.

Bem à sua frente, os oito painéis de madeira da A Adoração do Cordeiro, de Jan van Eyck, uma das mais preciosas peças da arte do século 15, que havia sido destinada por Hermann Göering para o futuro Fuhrermuseum, o museu planejado por Adolf Hitler para Linz, na Áustria.

A seguir, a lanterna do capitão Robert Posey iluminou outro tesouro que ele há meses caçava incansavelmente – a Madonna com o Menino, furtada da igreja de Notre Dame, em Bruges.

A carga resgatada pelos caçadores de arte encheu 80 caminhões, incluindo quadros, esculturas, desenhos e aquarelas, barras de ouro, prataria e tapeçarias antigas. Usando colchões velhos e um caminhão da Cruz Vermelha, o grupo do capitão Robert Posey despachou a Madonna para um depósito do exército. Dois anos depois, ela foi devolvida à Notre Dame, em Bruges.

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E hoje, lá está ela, em uma capela lateral da igreja, no centro de um nicho em mármore negro, ladeada por colunas em mármore vermelho e por duas estátuas representando Fé e Esperança. Depois do ataque à Pietà, no Vaticano, o bispo de Bruges tomou suas precauções – a “Madonna e o Menino” está protegida por uma vitrina blindada e só pode ser admirada a uma distância de 4 metros.

Serenamente, ela aguarda a próxima invasão de bárbaros – e um eventual novo sequestro.

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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