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A mãe dos cinco filhos da família Peçanha Martins

O cenário era a Escola Estadual Paula Soares, encravada na subida da Rua General Auto, uma lomba íngreme que eu subia todos os dias …

O cenário era a Escola Estadual Paula Soares, encravada na subida da Rua General Auto, uma lomba íngreme que eu subia todos os dias da semana para assistir as aulas das séries iniciais no colégio no Centro Histórico de Porto Alegre, lá pelos idos de 1967. Uma menina insegura de seis para sete anos precisava atravessar o salão e vencer a timidez diante de uma plateia formada de familiares corujas, e entregar o diploma de conclusão para seu pai e mãe. De uniforme alvamente branco, sapato preto lustrado, meia abaixo do joelho e uma fita segurando os cabelos compridos num rabo de cavalo, eu não consegui me mexer até perceber o olhar afirmativo e acalentador de minha mãe.

Quase todos os momentos importantes e fundamentais da minha vida tiveram a participação efetiva e decisiva de minha mãe. Sempre ela me fornecia um abano afirmativo, um olhar consolador, um conselho para diminuir as lágrimas, um ombro, um colo, um afago. E a rotina seguia adiante. Sempre com a ajuda de minha mãe para que fosse possível vencer etapas, curar medos, cicatrizar feridas, cuidar da saúde e até comemorar os sucessos.

Minha mãe foi a primeira, depois do pai da minha filha e na época companheiro, a ter a notícia da gravidez que vingou e gerou a Gabriela Trezzi. Mas também foi no apartamento da minha mãe, na Rua Doutor Barros Cassal, no bairro Bom fim, que chorei, meses antes, lágrimas e lágrimas pela gravidez interrompida de gêmeos antes de Gabriela. Durante a minha licença maternidade, minha mãe era companhia quase que diária nas descobertas das primeiras peripécias de Gabriela. Ao seu lado, passeava nos shoppings com meu nenê lindo no carrinho ou abrigado no seu colo. Na sua casa, fiquei abrigada um mês com a perna engessada quando Gabriela tinha pouco mais de um mês.

Os sucessos e fracassos nos empregos, os encontros e desencontros nos namoros, as viagens e os dias trancados em casa. Tudo sempre foi compartilhado com minha mãe. Tudo sempre teve o apoio de minha mãe. Sem interferência. Porque ela tinha o faro de saber quando eu precisava. E de se retirar de cena na hora exata. Sem ser mandada.

Mirthô Peçanha Martins teve cinco filhos. Perdeu a primeira filha com nove meses. Num tempo em que a pneumonia não tinha tratamento tão adequado. E o caçula com 37 anos. Foi quando começou, lentamente, a morrer um pouco todo o dia, até o dia 4 de julho de 2011, data em que deixou as filhas Sílvia e eu, o filho Fernando, a nora Flávia, os netos Rafael e Lucas, as netas Camila e Gabriela e bisnetos Lohana e João Pedro órfãos. Sem mãe, sem sogra, sem avó e sem bisavó. Sem seus tricôs, suas trufas, seu chá das 17h nos sábados, seus conselhos e suas organizações de almoços nos finais de semana.

Hoje, é preciso comemorar o Dia das Mães, sem a presença da Mirthô porque suas filhas e filhos geraram seus netos, que por sua vez, geraram os bisnetos e querem homenagear suas mães. E contam sempre histórias narradas pela Mirthô. E lembram sempre de fatos ocorridos na casa da Mirthô, onde o amor terminava sempre vencendo as barreiras.

Quem dera eu tenha conseguido plantar na minha filha Gabriela Trezzi, que almoçará comigo no Dia das Mães e assistirá comigo, pela terceira vez, o show Redescobrir Elis, da Maria Rita, um terço do amor que sinto ainda pela minha mãe.

Autor

Márcia Martins

Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Escola de Comunicação, Artes e Design (Famecos) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editorias de Economia e Geral, e em assessorias de Comunicação Social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em diversas antologias, ex-diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors) e presidenta do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA) na gestão 2019/2021. E-mail para contato: [email protected]
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