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À mancheia

Paradoxo: na quinta, 26 de junho, só consegui dormir depois das três horas e acordei antes das seis, no momento em que sonhava que …

Paradoxo: na quinta, 26 de junho, só consegui dormir depois das três horas e acordei antes das seis, no momento em que sonhava que não estava conseguindo dormir. Tentei transformar uma noite mal dormida num dia produtivo. Tentei…

Hospedei-me no Hilton de São Paulo algumas vezes, mas na última eu estava na pia do banheiro quando o telefone tocou, disse alô três vezes pensando estar falando na extensão. Era o secador de cabelo. O fone estava à direita.

“Oh! bendito o que semeia
Livros… livros à mancheia…”

Esses famosos versos de Castro Alves do poema “O Livro e a América”, citados milhares de vezes nos sites de pesquisa da Internet, foram falsamente “modernizados” nas muitas vezes em que aparecem como “à mão cheia” no lugar de “mancheia”. Acontece que atropelaram o vocábulo e deram-lhe outro sentido, pois mancheia é “punhado” e, no caso de livros, mão cheia não é a mesma coisa.  Há muito a ignorância inverteu o sentido de “olimpíada” – na verdade os anos em que não havia jogos olímpicos. A invertida vem sendo usada como sinônimo dos jogos. Nos outros países não se confunde jogos olímpicos com olimpíadas.  

Assistindo a uma entrevista na TV feita na biblioteca do Palácio do Planalto, ao ver livros à mancheia, lembrei-me de um filme famoso: “Os Intocáveis”.

No Antigo Testamento é dito que Deus, ao expulsar o casal do Paraíso, rogou a praga: “Ganharás o pão com o suor do teu rosto”. Quem escreveu isso era ruim de história, pois antecipou a existência do fogo, do trigo e do pão.

Passados 40 séculos os religiosos ainda discutem se o motivo da destruição das cidades de Sodoma e Gomorra ordenada por Deus teria sido as relações homossexuais ou a perversidade de seus habitantes. Se verdadeira qualquer hipótese, Deus mudou de idéia. Caso contrário, só restariam hoje algumas tribos selvagens.

Outro dia, o  jornalista e escritor Fausto Wolff recriminou o uso da expressão “orgulho gay” como uma afirmação de contingência ou opção sexual. Concordo. Nada a ver com orgulho. Sou macho por contingência e opção e nem por isso tenho orgulho, apenas cumpro o fardo com prazer.

Esse negócio de ter orgulho é mais relativo que a teoria de Einstein. Se um cara nasceu num lugar que veio a amar, qual o motivo do orgulho desse  sortudo? Se tem orgulho apenas por haver nascido lá, já é coisa de pavão. Acho furada essa idéia de ter orgulho pelo contingencial. Orgulho se deve ter pelo que a gente faz ou fez. No máximo, orgulho pelo DNA. É muito bom um Niemeyer, por exemplo, poder dizer: Orgulho-me da minha obra.

Hoje, segunda, dia 30, vai fazer palestra em “Fronteiras do Pensamento”, em Porto Alegre, onde já se encontra com seus dois seguranças, a jurada de morte pelo islamismo Ayaan Hirsi Ali, negra nascida na Somália e cidadã naturalizada holandesa, país onde foi parlamentar. Colaborou com o cineasta Theo Van Gogh no filme “Submission” o qual, por isso, foi degolado por fanático muçulmano em Amsterdã e ela jurada de morte. Ayan não tem orgulho de ser somali e muito menos de haver sido criada por pais muçulmanos. Ela – 39 anos – dedica sua vida à denúncia da cultura islâmica e é autora do best-seller “Infiel,” lançado no Brasil ano passado.

Há tempos, entrei num táxi e, numa emissora, um radialista entrevistava um punguista preso pela milésima vez:

– Mas você, de novo?!

– É. Não dei sorte!

– Então me diga onde coloco a grana para não ser furtado.

– Por dentro da cueca, lá a gente não põe a mão.

Guardei a lição e, na primeira viagem ao exterior, quando ainda não se sacava dinheiro com cartão de banco, resolvi, em vez de cheques de viagem, levar os dólares numa bolsinha de plástico, presa num cinto de borracha, por dentro da sunga. Quando desembarcamos – mulher e eu em Paris – me lembrei que quem fosse sair com mais de cinco mil dólares na Itália, caso não houvesse declarado na chegada a quantia possuída, arriscava a pagar, na saída, uma multa de 50% sobre o excedente, caso se descobrisse  quantias maiores. Na França, idem, sendo a multa de 25%. Coisa simplista, você podia gastar, ganhar não. A gente iria passar só dois dias em Paris antes de começar um tour pela Inglaterra, Bélgica, Holanda, Suíça, Alemanha e Áustria e, de Viena, voltar para Paris e desfrutar uma semana na França. Por isso, carregávamos, per capita, o dobro do dinheiro. Para não correr risco, resolvi declarar. Fui ao posto policial do aeroporto, expliquei ao encarregado a situação e disse quanto trazia. Ele entendeu e pediu que eu mostrasse o dinheiro. Olhei para os lados, fiz menção de desabotoar o cinto da calça e ele, com um gesto rápido me deteve, pediu o passaporte, sentou e fez a declaração. Como devia estar de bem com a vida, ele despediu-se com um sorriso e me desejou buenos dias. Como eu estava de bom humor, respondi:

Muchas gracias.

Com um bilhete “Demita-se esse vagabundo”, o então ditador Costa e Silva defenestrou Vinicius de Morais do Itamaraty. Ao morrer, o poetinha deixou entre poesia, prosa, teatro e música mais de mil trabalhos. Já o ditador deixou o Ato I-5, que oficializou o Brasil como um Estado assassino. Burro só come pâté de foie gras quando acaba o capim.

Acabou o meu capim. Vamos ao pâté!

Inté.

Autor

Mario de Almeida

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