Colunas

À mesa com Maigret II

Por José Antônio Moraes de Oliveira

“Não leio ficção contemporânea – com exceção 

dos contos de Simenon com o Inspetor Maigret.“

T. S. Eliot.

***

Era cedo da manhã, quando o Comissário Maigret abriu a janela do apartamento no Boulevard Richard-Lenoir e aspirou o ar de quase-primavera. Como sempre acontecia nos idos de março, Paris tivera uma semana de inverno, com tempestades e chuvas. Felizmente, os jornais anunciavam que naquele ano, a primavera começaria mais cedo. Era agradável ver o sol brilhar na fachada amarelada dos prédios, enquanto na rua pessoas vestiam roupas leves em lugar de sobretudos e cachecóis.

***

Jules Maigret se imaginou flanando pelos boulevards, sentindo os perfumes das manhãs parisienses, de café-au-lait e croissants quentes. Então olhou para a mesa coberta por documentos e dossiers enviados pelo Quai. Suspirou e acendeu seu primeiro cachimbo do dia – seu preferido. Madame Maigret apareceu na porta da cozinha. Vestia uma blusa de algodão estampada com pequenas flores: 

“- Qual é o problema?”

Maigret sentiu os cheiros que vinham da cozinha. E, ao invés de responder, quis saber:

“- O que há para o almoço?

“- Morue a la Crème”, respondeu Madame Maigret.

Ela sabia ser um dos pratos favoritos do marido e voltou sorrindo para a cozinha. O Comissário abriu o dossier do caso do assalto à joalheria do Boulevard des Capucines. O que começara com um rotineiro roubo de jóias, era agora um caso de homicídio, pois o joalheiro internado no Hospital Saint-Louis estava morto.  Enquanto isso, o polonês Antoni Vonick continuava à solta pelas ruas de Paris, depois de despistar Lucas e Lapointe. 

Maigret odiava papelada. O único trabalho a que ele se esquivava era escrever relatórios. Mas se obrigou a repassar os papéis mais uma vez, atrás de uma pista que provasse a culpa do polonês. Então, ao ler o depoimento do porteiro da Place Pigalle que dissera que Vonick passara a tarde com uma dançarina do Folies Bergère, lembrou de um genovês conhecido por prestar falso testemunho. Remexeu a papelada até achar o nome: Enrico Matteo, um malandro que jurava qualquer coisa, desde que bem pago.

***

No instante em que pegou o telefone para mandar prender o genovês, Madame Maigret emergiu da cozinha trazendo uma travessa fumegante com o Morue a la Crème. Era uma receita portuguesa que ela preparava à sua maneira, com parmesão, alho, cebolas refogadas, noz moscada, cravo da Índia, louro e muito azeite virgem.

E na mesa, uma surpresa o aguardava – um Saint-Emilion, o vinho que Maigret sempre pedia quando saiam para jantar. Ele largou a papelada, sentou-se à mesa, serviu o vinho e dedicou sua atenção à posta de bacalhau à sua frente. Pensou: o caso estava resolvido e o polonês podia esperar até amanhã.

 ***

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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