Colunas

À mesa com Maigret

Por José Antônio Moraes de Oliveira

“Muitas vezes o policial nasceu na mesma 

rua do criminoso, teve a mesma infância 

e roubou doces da mesma doceria”. 

Georges Simenon.

***

Já passava das oito horas da noite quando um cansado Jules Maigret empurrou a porta giratória do Fouquet’s. O dia começara com chuva e vento, enquanto os jornais anunciavam a chegada de uma onda de calor vinda do Mediterrâneo, algo que não acontecia desde 1931. Carrancudo, o Comissário tirou o chapéu, o sobretudo e se livrou do grosso cachecol de lã que Madame Maigret havia amarrado em torno de seu pescoço.

***

Como de hábito, Fouquet’s estava apinhado de gente elegante saboreando o jantar. O tilintar de talheres e copos lembrou a Maigret que ele não bebera nada desde o sanduiche de presunto com cerveja que almoçara no Quai. Um garção surgiu à sua frente:

“- Boa noite, Comissário, quer uma mesa ou prefere beber no bar?”.

Maigret resmungou qualquer coisa e seguiu o garção até o bar. Desabou em uma poltrona e disparou:

– Uma cerveja alsaciana ou qualquer outra que esteja gelada!”

A cerveja chegou e ele esvaziou o copo em dois goles, limpou a testa com um lenço listrado e encheu com vagar seu cachimbo  de raiz de roseira. O garção voltou com outro copo de cerveja e apontou para a cabine telefônica: 

“- Telefone para o Comissário”.

Maigret suspirou e foi atender. Era Lucas que estava seguindo o polonês suspeito do assalto à uma joalheria no Boulevard des Capucines. Não satisfeito com as jóias e relógios de ouro que amealhou, Antoni Vonick atirour à queima roupa no joalheiro,  que estava entre a vida e a morte. Detido e interrogado, Vonick tinha um álibi para a hora do crime. Segundo o porteiro de uma espelunca na Place Pigalle, ele passara a tarde com uma dançarina do Folies Bergère. O Comissário precisou soltá-lo mas mandou Lucas e Janvier em seu encalço. Ao telefone, Lucas relatou: 

“- O homem desceu as escadarias na Pont d’Alma, está no parapeito, olhando para o rio. Parece que vai fazer uma loucura. Devemos detê-lo, chefe?”.

Como só ouviu resmungos, concluiu:

“- Bien, vamos continuar com ele.”

Maigret suspirou, desligou e voltou para sua poltrona. Sentia-se pesado, o caso prometia uma boa dor de cabeça. Examinava o cardápio, quando o garção chegou com uma nova cerveja: 

“ – O Comissário vai aprovar o prato do dia. Ainda sobraram algumas porções na cozinha”.

E apontou para a lousa do bar:

“Ris de Veau avec Sauce aux Champignons”.

Aquilo o fez se sentir melhor – era uma das especialidades do Fouquet’s que ele mais apreciava. Vinha com um molho de champignons espesso, quase untuoso, preparado com vinho de Bordeaux e fatias bem finas de cogumelos selvagens. Tomou um grande gole de cerveja e assentiu para o garção, que disparou em direção à cozinha. Da cabine telefônica chegou o som da campainha. Maigret levantou-se e foi atender. Era Lucas, com mais notícias: 

“ – Chefe, Vonick parece que desistiu de pular no rio. Entrou em uma brasserie e pediu um cognac duplo. Lapointe avisa que um gendarme encontrou a arma do assalto em um canteiro. Mas não encontraram impressões digitais. Nem o saco com jóias e relógios”.

O caso estava ficando confuso, um suspeito de assalto que pensa se suicidar, desiste e vai beber cognac? Uma ruga ansiosa surgiu na testa do Comissário. Não havia provas, mas ele sabia que o polonês era culpado. E sabia que o porteiro da Place Pigalle estava mentindo. O Ris de Veau chegou, perfumado e fumegante. Maigret atou o guardanapo ao pescoço, pediu mais cerveja e um copo de Calvados. Falou baixinho:

“O polonês pode esperar”.

*** 

 

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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