
“Muitas vezes o policial nasceu na mesma
rua do criminoso, teve a mesma infância
e roubou doces da mesma doceria”.
Georges Simenon.
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Já passava das oito horas da noite quando um cansado Jules Maigret empurrou a porta giratória do Fouquet’s. O dia começara com chuva e vento, enquanto os jornais anunciavam a chegada de uma onda de calor vinda do Mediterrâneo, algo que não acontecia desde 1931. Carrancudo, o Comissário tirou o chapéu, o sobretudo e se livrou do grosso cachecol de lã que Madame Maigret havia amarrado em torno de seu pescoço.
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Como de hábito, Fouquet’s estava apinhado de gente elegante saboreando o jantar. O tilintar de talheres e copos lembrou a Maigret que ele não bebera nada desde o sanduiche de presunto com cerveja que almoçara no Quai. Um garção surgiu à sua frente:
“- Boa noite, Comissário, quer uma mesa ou prefere beber no bar?”.
Maigret resmungou qualquer coisa e seguiu o garção até o bar. Desabou em uma poltrona e disparou:
“– Uma cerveja alsaciana ou qualquer outra que esteja gelada!”
A cerveja chegou e ele esvaziou o copo em dois goles, limpou a testa com um lenço listrado e encheu com vagar seu cachimbo de raiz de roseira. O garção voltou com outro copo de cerveja e apontou para a cabine telefônica:
“- Telefone para o Comissário”.
Maigret suspirou e foi atender. Era Lucas que estava seguindo o polonês suspeito do assalto à uma joalheria no Boulevard des Capucines. Não satisfeito com as jóias e relógios de ouro que amealhou, Antoni Vonick atirour à queima roupa no joalheiro, que estava entre a vida e a morte. Detido e interrogado, Vonick tinha um álibi para a hora do crime. Segundo o porteiro de uma espelunca na Place Pigalle, ele passara a tarde com uma dançarina do Folies Bergère. O Comissário precisou soltá-lo mas mandou Lucas e Janvier em seu encalço. Ao telefone, Lucas relatou:
“- O homem desceu as escadarias na Pont d’Alma, está no parapeito, olhando para o rio. Parece que vai fazer uma loucura. Devemos detê-lo, chefe?”.
Como só ouviu resmungos, concluiu:
“- Bien, vamos continuar com ele.”
Maigret suspirou, desligou e voltou para sua poltrona. Sentia-se pesado, o caso prometia uma boa dor de cabeça. Examinava o cardápio, quando o garção chegou com uma nova cerveja:
“ – O Comissário vai aprovar o prato do dia. Ainda sobraram algumas porções na cozinha”.
E apontou para a lousa do bar:
“Ris de Veau avec Sauce aux Champignons”.
Aquilo o fez se sentir melhor – era uma das especialidades do Fouquet’s que ele mais apreciava. Vinha com um molho de champignons espesso, quase untuoso, preparado com vinho de Bordeaux e fatias bem finas de cogumelos selvagens. Tomou um grande gole de cerveja e assentiu para o garção, que disparou em direção à cozinha. Da cabine telefônica chegou o som da campainha. Maigret levantou-se e foi atender. Era Lucas, com mais notícias:
“ – Chefe, Vonick parece que desistiu de pular no rio. Entrou em uma brasserie e pediu um cognac duplo. Lapointe avisa que um gendarme encontrou a arma do assalto em um canteiro. Mas não encontraram impressões digitais. Nem o saco com jóias e relógios”.
O caso estava ficando confuso, um suspeito de assalto que pensa se suicidar, desiste e vai beber cognac? Uma ruga ansiosa surgiu na testa do Comissário. Não havia provas, mas ele sabia que o polonês era culpado. E sabia que o porteiro da Place Pigalle estava mentindo. O Ris de Veau chegou, perfumado e fumegante. Maigret atou o guardanapo ao pescoço, pediu mais cerveja e um copo de Calvados. Falou baixinho:
“O polonês pode esperar”.
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