Mãe moderna luta contra o tempo. Seu maior inimigo é o barulhinho irritante do relógio. Tanto para lembrar que precisa correr para não levar o (a) filho (a) atrasado (a) na escola, como para cutucar que ele não retornou da balada ainda e, valha-me nosso senhor do Bonfim, que sofrimento. Uma de suas inúmeras preocupações é conferir se o(a) filho (a) saiu agasalhado(a), apesar do “homem das previsões” assegurar que a temperatura vai aumentar. Mas cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém. Esse é um velho ditado que a mãe hiperengajada aprendeu com a sua mãe, que, por sua vez, aprendeu com a sua mãe e…..
O tempo passa impiedoso. Às vezes, um senhor carrancudo a lembrar que aqui passaram ancestrais. Por outras, um adolescente irresponsável, a incentivar loucuras porque nada melhor do que não fazer nada. As mães também passam e evoluem. Porque é inerente ao ser humano a evolução. Já não carregam a servidão cega pelo amo/marido. Hoje, donas do seu nariz, as mães é que dizem a última palavra e não é “sim, senhor”. Poderosas, são donas de carteiras recheadas com dinheiro oriundo do seu próprio trabalho. Não precisam mais submeter-se às migalhas do pão que o diabo amassou.
Mas, algumas coisas continuam iguais. Não há dinheiro, status quo, profissão do momento que possa mudar a relação que uma mãe tem com o (a) seu (sua) filho (a). É algo inexplicável. Intransmutável. Indescritível. Arrepiante. A evolução que a mãe experimentou ao longo do tempo apenas serviu para reforçar estes laços. Ao ficar mais inteligente, independente, consciente, segura e confiante de seus passos, a mãe também sabe que precisa repassar ao (à) seu (sua) filho (a) mais qualidade de vida. Porque mãe que é mãe não faz nada para si. Todo ato que empreende tem sempre um endereço certo: o(a) filho (a).
Na corda bamba desta linha, para não se machucar, a mãe aproveita que tem uns minutos de sobra entre os dois empregos e olha rapidinho o caderno do (a) filho (a) para dar uma geral nos temas e nos caprichos. E arremata: “Cuidado as orelhas de burro”, e só os mais antigos sabem do que falo. A mãe sempre desloca momentos do seu espremido lazer para a diversão do (a) filho (a). De quebra, termina vendo as comédias hilárias de tão ridículas ou acaba fã da Hilary Duff. A mãe aposenta os seus CDs e DVDs favoritos, só para escutar e ver os que o (a) filho(a) prefere, que pode ser o Armandinho ou o pior funk que existe.
Se você, amado leitor, que não é mãe, está pensando como eu também pensava antes de ser mãe: “Tá, não fez mais nada que a sua obrigação. E agora vai cobrar por isso”, eu lhe digo: “Não, mãe nenhuma cobra por nada”. É um trabalho que não é medido por variáveis e, por isso mesmo, impossível de ser cobrado e de ser mensurado. É uma dedicação sem se esperar nada em troca. Quer dizer… a mãe sempre deseja que o(a) filho (a) saia bem nos estudos, não ande em más companhias, respeite os mais velhos, arrume um bom emprego, tenha muito dinheiro no bolso e, principalmente, muita saúde.
No meu caso (que a propaganda é a alma do negócio), eu espero que a vida não fique pesada para a minha linda Gabriela Martins Trezzi (desculpa Gilberto Jasper, tive que usar o nome da filha de novo); que ela saiba escolher seus caminhos e, uma vez iniciada a sua trilha, responda sempre pelos seus atos. Que ela compreenda sempre que o mundo não é igual para todos, que alguns têm mais oportunidades, que o sol nem sempre aparece e que os atalhos, às vezes, nos levam a lugares horríveis. Desejo que ela saiba que existem diferenças. Que ela respeite as diversidades. Que seja feliz.
O maior desejo, no entanto, é que ela não desencarne antes de mim. Que Deus, que criou nosso destino, não seja cruel e não permita isso. Não existe nada pior para uma mãe que ver seu filho (a) morto (a). É algo que contraria a ordem natural da vida. Não contive as lágrimas no sábado (e um colega da RBS TV, tenho certeza, percebeu) ao fazer a cobertura do protesto de moradores e vizinhos contra a morte de Yasmim, cinco anos, abatida pela queda de um poste, enquanto brincava na mesma praça, no mesmo brinquedo, agora coberto de flores, perto de sua casa. Ao olhar a mãe da menina, totalmente transtornada, lembrei de Gabriela pequena andando faceira de felicidade nos brinquedos das praças.

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