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A morte anunciada

Fu Lana fugiu. Rebelou-se contra a falta de tempo para a fantasia. Assumira o corpo de sua mentora por saber de seu currículo irretocável. …

Fu Lana fugiu. Rebelou-se contra a falta de tempo para a fantasia. Assumira o corpo de sua mentora por saber de seu currículo irretocável. Muito trabalho, opiniões nada convencionais. No entanto, frustou-se nos últimos meses.

Fu Lana ficara trancafiada em uma cachola que hoje só pensa em números, datas, eventos e… irgh, coisas reais. Nenhuma peça de teatro, ou uma simples exposição de arte. Um filmezinho, então, nem pensar. 

Fu Lana não acha sequer uma brecha para fazer aquele voo esperto, fugaz, que dava sentido ao excesso de realidade. Por isso, evadiu-se. Resolveu fazer um protesto branco. Ficar em silêncio e deixar seus leitores à míngua. Que leitores? pensa ela, aturdida com essa nova vaidade. Sem dúvida, modificou-se. É certo, envelhecera.

Nada mais é perfeito como era antes, quando tudo tinha um defeito. Quando a ironia arredondava as arestas do comportamento e tudo virava um figura do excêntrico e do esquisito. E, pasmem, ela adorava ser a exceção, o passo errado. Era autêntica. A fonte secou.

O que aconteceu? O mundo ficou… certo! Fu Lana não encontra energia para espiar e dizer o que vai mal. Ela mesma virou uma peça na engrenagem e aceita direção. Não se sente mais um fora do ninho, que possa ser o contraponto. Ou seja, arrefeceu, cedeu, acostumou-se, acomodou-se.

A pior palavra que poderia escolher hoje, em seu recesso do silêncio branco seria: …morreu.

Foi asfixiada pelo excesso de seriedade. Seria melhor desistir desta que carrega um espírito selvagem e escolher outra cabeça, que traga também um corpo, melhorzinho, e um coração. Chega de cérebro, que, vamos combinar, já estava em falta.

Numa de suas depressões, Fu Lana viu se aproximar uma designer bem novinha, com a energia na ponta dos cascos, ou, ops, na ponta de unhas bem feitinhas cheias de bolinhas brancas sobre um esmalte azul. Imediatamente nossa quase exaurida heroína abriu os olhos e percebeu que uma nova energia ingressara em seu cativeiro.

A menina reclamava, pois não faziam como ela queria, que tinham de subir um milímetro para a direita, afinal, ela desenhara exatamente assim, porra! Aquele palavrão espontâneo, aquela poesia em um golpe de respiração e a energia com que foi lançado em um tom acentuado, fez Fu Lana escolher definitivamente.

E o silêncio foi de morte. Na Coletiva, não haveria clônicas por semanas. Ao invés disso, apenas opiniões laclônicas. Fu Lana fugiu. E agora?

***

Acabamos de encontrar a autora caída, desfalecida, ao lado do computador. Quem sabe na próxima semana, poderá estar de volta, abordando sobre temas filosóficos, de como será o futuro em 2015… Ou dissertando sobre a tendência do design de jornais eletrônicos. Quem sabe a morte de Fu Lana não venha para o bem… Tudo bem, chorem, mas aguardem. Sentados.

Autor

Clo Barcellos

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