Colunas

A mulher que incendiou Paris

                  “Nunca se queixe, nunca se explique.” (Elsie de Wolfe) Quando começou o século 20, não …

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“Nunca se queixe, nunca se explique.”

(Elsie de Wolfe)

Quando começou o século 20, não se conhecia, no eixo New York-Paris, mulher mais extravagante e admirada do que Elsie de Wolfe. Ela fez da decoração de interiores uma referência de refinamento e modernidade. Suas festas eram verdadeiros acontecimentos. Em 1939, ela promoveu um suntuoso baile a fantasia em sua vila em Versailles, onde circulavam cabeças coroadas, princesas, aventureiros e milionários falidos. Era o fim dos deslumbrantes “années d’or” e a guerra chegava às portas da Europa.

***

Os anos 1900 foram férteis em mulheres extraordinárias. Mas poucas possuíam a aura e a energia de Elsie de Wolfe. Esta nova-iorquina de classe média casou-se com Sir Charles Mendl, embaixador britânico nos Estados Unidos. Foi um casamento de faz-de-conta, mas lhe permitiu praticar o alpinismo social, com ousadia e graça. As inovações e atitudes de Elsie de Wolfe despertavam admiração e ciúmes nas altas rodas. Ela não se intimidava, desfilando nos salões elegantes com os cabelos tingidos na mesma cor de seus vestidos de gala. Em férias na Escócia, conheceu aristocratas e foi apresentada à Rainha Victoria em Balmoral, que elogiou seus cabelos azul-celeste.

De volta à New York, Elsie de Wolfe tenta a carreira de atriz de teatro, mas suas ambições não cabiam nos palcos da Broadway. Ela decora e redecora sua penthouse, para o encantamento dos que a visitam. A tal ponto que o famoso arquiteto Stanford White lhe encomenda a decoração do Colony Club, o primeiro clube only for women da América, ao tempo em que a palavra feminismo ainda não era pronunciada.

O décor do Colony Club fez sucesso e acabou na Vogue norte-americana e replicada na Vogue Paris. O título da capa mostra quem era Elsie de Wolfe:

“Eu abri as portas e janelas das casas da América e deixei o ar e a luz do sol entrar”.

Elsie diz adeus à Broadway e ingressa no grand monde dos dois lados do Atlântico. Em uma época em que o pesado estilo vitoriano ditava moda, criava ambientes pintados de branco, com espelhos nas paredes   e móveis coloniais americanos. Sem saber, ela encerrava a ditadura do mobiliário francês do século 18 e iniciava o minimalismo, que abre o caminho para o modernismo. Encantados com suas inovações, estrelas de Hollywood, como Gary Cooper e o magnata Henry Clay Frick, um dos mais ricos homens da América, lhe pediam que decorassem suas casas em Bel Air e Manhattan. A América fora conquistada, mas faltava ganhar Paris.

***

Na década de 1910, Elsie e Sir Charles em férias nos campos de Versailles, descobrem uma antiga residência de nobres durante a Revolução Francesa. A majestosa Villa Trianon estava em ruinas, mas, em dois anos, Elsie de Wolfe recupera seu antigo esplendor, com cozinhas e banheiros modernos e uma ala para hóspedes. Que logo começam a chegar, vindos de New Iork e Londres, ávidos por desfrutar os anos dourados da vida parisiense. Como Anne Morgan, a herdeira de J.P. Morgan, que se dispõe a pagar a reforma dos jardins e a construção de um pavilhão de música. E as festas começam, com estonteante brilho e frequência. A lista de hóspedes era imensa – Coco Chanel, os Rothchilds, o futuro rei Edward VIII, príncipes, núncios papais, artistas, escritores, beys do Oriente e estrelas de cinema. Em seu livro Wolfe: A Life in High Style, a biógrafa Jane Smith recorda a frase da Duquesa de Windsor após uma visita à Villa Trianon:

“Elsie sabe misturar pessoas como em um coquetel.

E o resultado é uma obra de gênio.”

***

Embora conhecida como mundana e frívola, Elsie de Wolfe foi um raro exemplo de afirmação e coerência, naqueles anos preconceituosos. Foi enfermeira nas trincheiras da I Guerra e em 1940, cede sua Villa Trianon à Cruz Vermelha, mas com a invasão de Paris pelos alemães, foge para a América. De volta à Califórnia, resgata uma mansão em ruinas em Beverly Hills e a transforma em uma vila florentina, batizada de After All, o mesmo título de sua autobiografia.

No entanto, seu coração continuava na França. Com o final da guerra, retorna à Villa Trianon, saqueada pelos nazistas e a restaura mais uma vez. Morre sozinha em 1950, no dia seguinte ao seu último garden party.

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
Compartilhar:

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.