A noite mais fria em Porto Alegre dos últimos invernos de que me recordo. Não recorri ao Tio Google para saber se a minha afirmação acima é verdadeira. Pois se nevava em meu coração. Gelava a minha alma. Congelava qualquer possibilidade de carinho materno futuro. Hibernava toda emoção. E nada é mais frio e gélido do que esta sensação de perda. Nada consegue aquecer uma pessoa quando esta vê que deixa de existir todo o seu passado, o presente e a promessa de estórias compartilhadas, fotos em preto e branco, canções de ninar, receitas culinárias e blusas de tricô.
Minha mãe morreu na segunda-feira, tarde de 4 de julho, na casa do meu irmão e da minha cunhada/irmã em Butiá, após sobreviver a um longo período de enfermidade. Depois de um final de semana em que passamos juntas a dividir a cumplicidade do fim, que já vivenciávamos. Em que eu ouvi o respirar cansado e quase ofegante se despedindo de mim. Em que sua mão repousou tão suavemente sobre a minha para me repassar a certeza de que seria a última vez. Em que beijei seu rosto esquálido, mas expressivo de dor com um sonoro “eu te amo” porque pressentia o dia de amanhã.
E desde então, fez-se frio eterno na minha vida. Porque ver uma mãe morrer é perder a referência de vida. É como se arrancássemos todas as páginas iniciais e do meio da nossa história de vida, deixando as folhas finas em branco para o que seria o fim do romance. Ver uma mãe deixar este plano é desenvolver todo o nosso lado egoísta, que não quer se desprender da origem da nossa vida. E insiste em acreditar em imortalidade, alimentando a crença do poeta de que as mães não devem morrer jamais. E sem a ternura da mãe, morre um pouco a poesia em minha vida.
Assim, desfeita em lágrimas, encharcada de dor, tropeçando nas lembranças, encaixotando o passado, vi minha mãe se separar fisicamente de mim na noite fria deste inverno terrível de Porto Alegre. Sem saber como escreveria os próximos dias e noites de minha vida, vi minha mãe desistir de sonhar, acreditar, ambicionar, lutar e viver. E sem forças para controlar a minha dor, que sempre parece a maior dor do mundo, precisei buscar força emprestada para amparar a minha filha, agora órfã de vó.
Sei que a morte é a única certeza da vida. E que para morrer, um dia ou uma noite, é que nascemos. Sei que a dor da morte é algo pungente capaz de deixar marcas profundas. E compreendo, perfeitamente, que a minha mãe deixou de sofrer e que foi uma guerreira cumprindo sua missão aqui nesta terrinha e até ajudando a resolver os carmas dos outros. Mas saber, compreender, entender e aceitar são verbos que não atenuam a dor da perda. Por isso, continuo desfeita, enfraquecida, combalida, abatida, tropeçando e carregando uma dor imensa. Tão imensa como o meu amor pela minha mãe Mirthô. (*)
(*) Havia avisado o editor do site que não escreveria a coluna em função do luto, mas as palavras foram pedindo licença e se materializando. Por isso, divido com vocês leitores ou não, este meu momento de dor.

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