Estreia em cinemas de diferentes cidades brasileiras, incluindo Porto Alegre, neste dia 3 de agosto, o ótimo filme ‘Casa Vazia’, do diretor, roteirista e produtor Giovani Borba, produzido pela Panda Filmes.
Rodado no extremo sul do Brasil, mais precisamente nas cidades fronteiriças de Santana do Livramento, pelo lado brasileiro, e Rivera, no Uruguai, o longa-metragem aborda problemas sociais e econômicos, como o empobrecimento da população local diante do avanço de novas tecnologias e da opção pela monocultura da soja, que provocam dispensa da mão de obra local.
A obra firma uma ponte entre a ficção e o documental, com cenas dramáticas, tensas, com uma violência velada, em meio à bela paisagem pampeana, em imagens muito bem captadas pelo fotógrafo Ivo Lopes Araújo que, com este trabalho, foi premiado no Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro (Festival do Rio), em 2021, e na Mostra Competitiva Gaúcha de Longas-Metragens do Festival de Gramado, em 2022.
Aliás, ‘Casa Vazia’ recebeu outros quatro Kikitos: melhor ator (Hugo Noguera), melhor roteiro (Giovani Borba), melhor desenho de som (Marcos Lopes e Tiago Bello) e melhor trilha musical (Renan Franzen). Um ano antes, o filme esteve na mostra Goes to Cannes Marché du Film, em Cannes.
Pela primeira vez tive a oportunidade de ver um projeto de longa-metragem de ficção literalmente no papel. Quando conheci o jovem cineasta Giovani Borba, tive o privilégio de receber dele o projeto do ‘Casa Vazia’, com apresentação, logline, sinopse, argumento e um extrato de roteiro, além da proposta narrativa, visual e sonora do diretor. Foi amor à primeira vista pelo projeto.
Até aqui, sou um mero espectador de obras de ficção (sonho em breve ter uma participação efetiva em uma obra do gênero). Mas desde o início acreditei que o projeto teria êxito. E ainda tive a oportunidade de dar uma pequena contribuição. Ô sorte. Então, ‘Casa Vazia’ nesta quinta-feira nos cinemas.
Quase presos
Pego o gancho do lançamento de ‘Casa Vazia’ para contar aqui uma história ocorrida recentemente e que diz respeito ao meu período ligado ao audiovisual. No embalo do sucesso do longa-metragem ‘Central – O Poder das Facções no Maior Presídio do Brasil’, eu e a Tatiana Sager, minha sócia na Falange Produções, sócia diretora da Panda Filmes e diretora do documentário, cumpríamos uma agenda de festivais na Europa, no final de 2017.
Em Paris, depois da longa viagem, passei a enfrentar um problema no pé esquerdo, decorrente da diabetes. Aguentei firme, mas, em Milão, a situação se agravou. Mesmo assim, consegui ainda participar da exibição do filme e do posterior debate com o público, com a ajuda de uma tradutora. Além de mim e da Tatiana, participou o Luca Alverdi, italiano de Milão, residente em Lisboa, editor do excelente filme ‘Estômago’ e também do nosso ‘Central’, diretor da produtora Cabíria, que faz coproduções com a Panda Filmes e com a Falange Produções.
Depois do filme e do debate com vários participantes fomos a um restaurante. Foi quando perceberam que eu necessitava de atendimento médico. Um simpático casal italiano me levou a um hospital local, onde uma das médicas plantonistas decidiu pela minha internação.
Era um hospital público, mas com um excelente atendimento. Para se ter uma idéia, por encaminhamento da médica plantonista, fui examinado por dois ortopedistas, que constataram que não havia fratura e, na sequência, por três cirurgiões cardiovasculares, que concluíram que se tratava de uma complicação da diabetes. Ou seja: para tudo havia mais de uma opinião médica.
Aliás, todos – médicos, enfermeiros, técnicos em enfermagem – eram muito atenciosos, salvo um detalhe: mesmo percebendo que eu não falava italiano, se comunicavam comigo neste idioma e azar que eu não entendesse nada. Tipo: “o recado está dado, se não entendeu, o problema é teu”. Nos horários de visita, quando o Luca estava presente, ele era o meu tradutor.
Em uma tarde, fui trocado de quarto. Enquanto me conduziam de maca pelos corredores, vi que, na frente do meu novo leito havia policiais escoltando alguém. Quando a Tatiana chegou, ela não se conteve e foi ver quem era o escoltado. Viu que o preso era todo tatuado. Pouco tempo depois, iniciaram uma nova remoção, mas, temporariamente, deixaram a minha maca “estacionada” quase na frente do quarto da escolta.
Em comum acordo com a Tatiana, peguei o meu celular e comecei a fotografar. Com a experiência de anos de fotografia, ela examinou as que eu já havia feito e pediu: “faz outra”. Nem eu nem ela, no entanto, havíamos percebido que um policial se posicionara atrás da maca e flagrara o momento em eu fazia um novo registro. Ele então começou a falar um monte de coisas em italiano. Eu gesticulei com a cabeça a fim de comunicá-lo de que não estava entendendo nada do que ele dizia.
Foi então que o policial fez o tradicional e universal gesto de cruzar os braços na altura dos punhos, colocando um sobre o outro. O que pode ser traduzido de diferentes formas, mas todas com o mesmo significado:
“Vocês têm o direito de ficar calados. Tudo o que disserem pode e será usado contra vocês no tribunal”. Ou, simplificando: “estão presos” ou ainda no popular: “teje preso”.
A partir daí, na sequência, eu tentava fazê-lo me entender com gestos e falando português, a Tatiana tentando no inglês e no francês, e o policial seguindo no italiano. Ele conseguiu entender que alegávamos ser brasileiros e jornalistas. Pediu então nossos passaportes e o meu celular e seguiu pelos corredores. Cerca de duas horas depois, ele retornou rindo. Devolveu o aparelho e os documentos e disse mais algumas coisas em italiano. Na minha mente, eu traduzi como algo do tipo:
“Ok, vocês não são mafiosos nem terroristas. Estão limpos. Mas parem de fazer bobagens desse tipo para não pegar uma cana por aqui”.
Para mim e para a Tatiana, 90% do desfecho foi um alívio. Os outros 10% foi uma certa frustração. Afinal, para quem que, como nós, já visitou mais de 20 prisões Brasil afora, representou uma oportunidade perdida de conhecer, por experiência própria, duas prisões (uma masculina e uma feminina) na Itália.
Obs: o parágrafo anterior é uma mera brincadeira.

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