“No domingo, você anda em paz pela rua,
O quartier está deserto,
As lojas fechadas,
Mas, debaixo do céu cinzento,
A rua é verde atrás dos portões das lembranças,
E você dança sem saber.”
(Jacques Prévert)
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Aos olhos do viajante apressado é apenas uma estreita viela, mas como tantas outras ruas de Saint-Germain-des-Prés, ali estão guardadas preciosas memórias e encantamentos. No século 14, era conhecida como rue des Marais-Saint-Germain, mais tarde rebatizada de rue Visconti, em honra ao arquiteto da tumba de Napoleão Bonaparte nos Invalides. Ela liga a rue Bonaparte à Rue de Seine e tem a fama de ser a mais longa das vielas de Paris.
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Ao longo da rue Visconti, o flaneur é presenteado com pequenos segredos da história do quartier. No número 24, uma pequena placa indica a casa onde viveu e morreu o dramaturgo Jean Racine. Logo adiante, nos números 17 e 19, Honoré de Balzac, o autor de “A Comédia Humana”, montou uma gráfica para publicar os clássicos a preços populares, mas o fracasso o obrigou a vender os livros como papel velho. E, no centro do quarteirão, o flaneur olha para o alto, tentando identificar nas mansardas o estúdio onde Eugène Delacroix criou algumas das obras-primas da pintura romântica francesa.
Ninguém sabe ao certo de onde se originou o curioso apelido de rue de Baisers Cachés. O escritor e juiz aposentado Eros Grau sugere que teria sido inspirado pela pouca distância entre as janelas dos dois lados da rua, que talvez…
“…estariam tentando se abraçar, talvez trocar beijos escondidos”.
O escritor, ele mesmo um incansável flaneur, diz de outro segredo que descobriu: entre a rue Visconti e a rue Jacob existe um cour, onde o marechal de Saxe mandou construir o Temple de l’Amitié, dedicado à sua amante, a atriz Adrienne Le Couvreur, ela própria uma figura lendária da Paris do século 18.
E foi neste mesmo cour escondido em Saint-Germain que, durante os “anos dourados”, a milionária norte-americana Natalie Clifford Barney instalou seu salão literário, onde durante quase 50 anos promoveu memoráveis garden-parties, frequentados por Colette, James Joyce, Marcel Proust e Paul Valéry.
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Com o passar dos anos, o templo, construído por um marechal de França como um refúgio romântico, se transformou em palco de tragédias e escândalos. Quando morreu, Adrienne Le Couvreur, considerada a maior atriz de sua época, teve negada sepultura em campo santo e até hoje não se conhece qual o paradeiro exato de seus restos mortais. Já Natalie Barney ficou famosa como uma grande figura da Belle Époque, ao acolher escritores e artistas norte-americanos, que chegavam a Paris nos anos 20 e 30 em busca de fama, liberdade e bebida barata.
A vida pessoal e os poderes de sedução desta diva provocaram frequentes escândalos, o que lhe valeu o apelido de “Casanova fêmea”.
Seus comentários irreverentes sobre a vida dos artistas e membros da sociedade parisiense ficaram célebres. Como quando dispensou sua companheira Colette com a frase:
“Amantes também deveriam ter seus dias de folga.”
Ou quando disparou, diante de um pensativo Marcel Proust:
“O tempo grava em nossas faces todas as lágrimas que não derramamos.”
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Os mapas atuais de Paris indicam que na rue Jacob 20 ainda existe um acesso público ao cour do Temple de l’Amitié. No entanto, como garante Eros Grau, está sempre trancado a sete chaves.
Quais outros mistérios estariam guardados no templo de Adrienne?
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