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A sabedoria dos profetas

A princípio, não dava para entender por que o sr. Luiz Inácio Lula da Silva, que patrolou o adversário Geraldo Alckmin na eleição presidencial, …

A princípio, não dava para entender por que o sr. Luiz Inácio Lula da Silva, que patrolou o adversário Geraldo Alckmin na eleição presidencial, em vez de festejar com churrasco, cerveja e pelada na Granja do Torto, choramingava contra a imprensa como se fosse o perdedor. Fez queixa até a Hugo Chaves, apesar de o balanço mostrar apenas uns poucos colunistas mais contundentes, em contraste com outros, também poucos, que o apoiavam claramente e chamavam Alkimin de picolé de chuchu. Isso, sem contar terceiros que se mostraram contidos em nome da imparcialidade.

Não criticável em nenhuma das posições, desde que explícitas. Como diria Acácio, o Conselheiro, vivemos uma democracia. Não havendo o subterfúgio da meia-verdade ou do boato plantado para dissimular o engajamento, enquadra-se tudo no exercício do livre pensar.

Parece, entretanto, que o velho Acácio enganou-se desta vez. A levar-se em conta as lamúrias perdedoras do presidente vencedor, o que temos aqui é um neo-fundamentalismo islâmico, a exigir muezins que cantem “Lula é Lula e Márcio Thomaz Bastos o seu maior profeta”.

De fato, a mais recente “sura” do novo Corão é recitada pelo delegado federal de Cuiabá, dizendo que o escândalo do dossiê não vai dar em nada por não ser possível saber a origem do dinheiro. É a pergunta, cuja resposta Lula não deu a seu adversário durante toda a campanha eleitoral e que, com notável precocidade, Márcio Thomaz Bastos adivinhou ser difícil de se obter.

Nada como a sabedoria dos profetas.

***

O deputado João Almeida, do PSDB da Bahia, é o autor do argumento mais imoral que se tem ouvido, no Brasil, em defesa da perversão chamada voto proporcional que transformou o Congresso brasileiro em mercado persa. João Almeida diz não haver necessidade de voto distrital misto porque “mais de 50% do Congresso sequer compreende o que é isso”.

Há muitas coisas que ninguém compreende no Brasil, não só esses modestos 50% do Congresso, mas com toda a certeza 99,999 por cento do eleitorado. Uma delas é como João Almeida e seus assemelhados conseguem eleger-se para abocanhar um sarrabulho de mais de 100 mil reais por mês, fora o alho, entre subsídios, verbas disso e verbas daquilo, ao que deverá ser acrescentada, proximamente, a equiparação aos ministros do Supremo Tribunal Federal.

A suposta simplificação do debate, pretendida pelo tucano João Almeida, defende a única proposta de reforma política em andamento no Congresso. Institui o voto de lista. É o novo milagre brasileiro, que de novo só traz a possibilidade de novas patifarias a partir do financiamento público das campanhas.

O atual sistema de voto proporcional é voto de lista, apenas com o eleitor, não o partido, indicando quem será eleito para as cadeiras conquistadas. O voto de lista, se aprovado, só vai piorar a situação. Vai perpetuar a malandragem: em vez de o eleitor dizer quem deseja que ocupe a cadeira de deputado, são os “donos” dos partidos que o farão. E aí, nunca mais nos livraremos dos filhinhos de papai ou dos genros do bastantão.

Autor

Jayme copstein

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