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A santa ira

“Nós devemos ser como os anjos, flutuando, mas só o conseguiremos se não nos levarmos demasiado a sério.”

G.K.C.

Há mais de cem anos, Gilbert Keith Chesterton escreveu uma distopia sob a forma de uma novela profética e extremamente divertida. Ele afirmou que além de Ortodoxia, o livro que lhe deu mais prazer ao escrever foi A Taberna Ambulante. O que sugere que ele teria sido divertido alternar profanas canções de bebedores de cerveja às suas habituais sátiras e polêmicas. Um crítico literário da época definiu:

“Um livro carregado de santa ira e elevada alegria.”

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É igualmente provável que Chesterton estava à procura de uma fuga para a angústia que o afligia, com o julgamento de seu irmão Cecil, então processado por calúnia e difamação. A Taberna Ambulante é um sutil e poderoso libelo contra políticos corruptos e ineficazes, que se desligam dos cidadãos e tentam suprimir seus direitos e liberdades. Além disso, GKC não poupou jornalistas, críticos literários, bajuladores e demagogos profissionais. Mas o grande vilão é Lorde Ivy Wood, líder do Parlamento, um político frio, calculista e autor de um lei opressiva que instala, de forma indireta e oblíqua, a Lei Seca na Inglaterra. A nova lei não obriga o fechamento de pubs e tabernas, mas proíbe o uso das tradicionais placas de identificação. 

É quando dois aventureiros, um soldado irlandês, Patrick Dalroy e Humphrey Pump, dono do The Old Boat viajam Inglaterra afora, abrindo tabernas temporárias em seu caminho. Como bagagem, um barril de rum, um grande queijo Cheddar, um cachorro e um jumento. 

Assim o escritor inglês instala – há mais de cem anos – um cenário de ficção, bastante profético, mostrando uma Inglaterra que aos poucos se islamiza, por obra de políticos progressistas, que desprezam as raízes culturais e cristãs. E enquanto Lorde Ivywood, vislumbra no islamismo “a mais progressista de todas as religiões”, perseguindo bares, pubs e tabernas, a rebeldia emerge entre homens comuns. O taberneiro Humphrey Pump fecha seu pub, arranca a antiga placa e acompanha o irlandês, Patrick Dalroy em quixotesca cruzada contra o establishment.

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O gênio de Chesterton cria em Lorde Ivy Wood um vilão perfeito, capaz de encarnar tudo o que está errado com o mundo. Mais do que personificar um governante ambicioso, a serviço dos grandes negócios, ele símboliza o abandono da religião ocidental, com a irrefletida aceitação de dogmas islamitas. O chesterniano Dale Ahlquist, que tem vários livros publicados, escreveu que mesmo que o autor tenha afirmado que concebeu A Taberna Ambulante como um “um épico sobre a Crescente e a Cruz”, o livro não é um embate entre Cristianismo e Islamismo. Na verdade, Chesterton mudou a ênfase de sua ideia original para uma vigorosa defesa da democracia e da cristandade. E, como sempre, logo surgiram na sociedade inglesa pesadas críticas alegando que as canções de bebedores e a defesa dos pubs tinham o propósito de justificar e glorificar a bebedeira. 

Mas o chesterniano Ahlquist diz ser evidente que Chesterton protestava   com a perda do tradicional centro social das pequenas cidades. Muito mais do que um lugar para beber, o public bar sempre foi uma instituição, onde homens se reúnem para conversar e discutir de tudo um pouco, do esporte à política, sem esquecer os mexericos do dia. Um rito essencial  na cultura britânica, onde a bebida é quase sempre acessória. 

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Aqui surge mais um paradoxo chestertiano – o verdadeiro problema não a bebida mas a proibição. Ele não nega o abuso do álcool, mas procura demonstrar que sempre existirá mais abuso onde se proíbe do que onde se permite. 

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Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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