Colunas

A torre

Por José Antônio Moraes de Oliveira

“Sou um espalhamento de cacos 

sobre um capacho por sacudir.”

Álvaro de Campos.

Ando por uma rua que não conheço, em uma cidade onde nunca estive. Mas ao dobrar uma esquina que me parece vagamente familiar, estou de volta a cenários da minha infância. Indistintos fragmentos de outros tempos se transformam, se tornando reais e verdadeiros.

***

Os antigos acreditavam que a passagem das areias do tempo deixa marcas em todos e em tudo ao nosso redor. Deve ser verdade, pois não mais encontro as velhas casas de porta e janela nem os sobradinhos coloridos do meu antigo bairro. 

Havia uma ladeira de paralelepípedos, onde os guris jogavam bola no meio da rua. Agora está encoberta por asfalto, por onde sobem e descem carros, tanto de dia como de noite. Era um na metade do caminho entre os Moinhos de Vento e o Bom Fim. Eu andava para lá e para cá, para ver os amigos alemães na Ramiro Barcelos e os amigos judeus da Felipe Camarão. Seguia pela Ramiro, com uma parada na Castro Alves, onde morava o alemão Arno, que tinha um trem elétrico na garagem de casa e onde ainda se falava português com sotaque.

***

As tardes de domingo eram calmas e plácidas, com as famílias passeando suas roupas de festa pela Avenida Independência. No caminho para a Hidráulica, admirávamos com gosto os grandes casarões da 24 de Outubro e seus jardins de flores. E ouvíamos o pai falar o nome dos moradores e seus significados: 

“- Ali moram os Schneider, que significa alfaiate; Depois os Becker, padeiros; Maurer são pedreiros, mais adiante, os Koch, cozinheiros; os Zimmer, marceneiros e os Schumacher, que quer dizer sapateiros…”

Achávamos engraçado um sapateiro morar em um belo casarão com jardim e tudo o mais. Mas o melhor de tudo nos esperava nas alamedas da Hidráulica, onde, livres das mãos dos pais, corríamos em volta do chafariz, rindo e pulando nas nuvens de borrifos d’água. Em uma daquelas tardes que mais me lembro, o pai nos levou  por uma escada em caracol até o mirante no topo da torre. Tive um susto ao avistar a cidade embaixo e a perder de vista, desde o Morro da Polícia até o Guaíba prateado pelo sol.

***

Perdida e quase esquecida na memória, a minha cidade luminosa sobrevive, com os telhados de telhas vermelhas, as janelas de venezianas verdes e as calçadas atapetadas de flores azuis dos jacarandás. Mas então, sem avisar, o tempo passou. E do menino do alto da torre sobram apenas rastros – a calçada de ardósia rosa onde ele lanhou os joelhos e o som de sineta do bonde que desliza pela avenida de altas palmeiras.

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Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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