Colunas

A troca da Dona Candinha

Dona Candinha voltou das férias cheia de esperanças no Brasil. Passou o mês de fevereiro e o início de março na casa de uma …

Dona Candinha voltou das férias cheia de esperanças no Brasil.

Passou o mês de fevereiro e o início de março na casa de uma amiga em Cidreira. Praia pela manhã, almoço, sesta, palavras cruzadas, canastra e uma novelinha, à noite. Ela é fera nas palavras cruzadas, lecionou Português durante 40 anos: escola privada, pública e aulas particulares; seu vocabulário é muito rico, dizia o Ernesto, seu falecido marido.

O casal teve uma filha apenas, a Rita de Cássia. O parto fora de tanto risco que decidiram homenagear a santa protetora de Dona Candinha.

Ritinha revelou, desde cedo, grande talento nas ciências exatas. Ao concluir a escola, foi homenageada: melhor aluna de Matemática, coisas da genética, acredita Dona Candinha, o Ernesto foi um ótimo engenheiro.

Durante a escola, Rita de Cássia ajudava as colegas ensinando-lhes Matemática e Física. Para decidir a carreira a seguir, houve poucas dúvidas: foi a primeira colocada no vestibular de Matemática da Ufrgs. Além da vocação, lá no final dos anos sessenta, o pai tinha a clareza que o Brasil só se desenvolveria com sólidos investimentos em pesquisa na área científica, era imperativo investir na formação de engenheiros, daí a importância da Matemática.

Formada, Rita foi fazer pós-graduação e lecionar. Duas escolas públicas. A partir da sexta série, assumia qualquer turma.

No mesmo andar, no prédio onde a família do Seu Ernesto morava, enquanto Ritinha cursava a faculdade, viviam Dona Aurélia, seu marido e um casal de filhos. O menino, mais velho, fora muitas vezes aluno de Dona Candinha. Aulas gratuitas, pois para Dona Aurélia, aquilo era uma cortesia entre vizinhos. A cada mês enviava uma tigela de sagu para a casa de Dona Candinha. Esta, por sua vez, tinha dúvidas se o doce era elaborado com água ou com vinho.

Niquinho, era este o apelido do pimpolho, tinha o afeto de sua professora particular. Aceitava as boladas na porta quando ele jogava futebol no andar, o sagu aguado de Dona Aurélia e suas enormes dificuldades diante da concordância verbal e da regência – a de implicar, por exemplo, ele errava sempre. Incomodava-a apenas aquela camisa do Grêmio que ele, freqüentemente, usava.

Mas, voltemos às férias de Dona Candinha. Certa tarde chuvosa, lendo a Veja da semana, na seção de frases da semana, encontrou a proposta de um ministro do Supremo. O jurista sugeria a troca de seus vencimentos pelos de um parlamentar. “Me serve”, pensou ela, invertendo o pronome.

Dona Candinha não entende por que a mídia insiste na avacalhação do Legislativo, acha que não se deve chutar cachorro morto. Por outro lado, tem dúvidas acerca das justificativas pelas quais a mesma mídia tanto adula o Judiciário. Para isso, ela aventa três possibilidades: medo, puro puxa-saquismo ou uma fusão das alternativas anteriores.

Entretanto, Dona Candinha concentrou-se na proposta do ministro: a troca.

Niquinho, depois de muito sofrimento, graduou-se em Direito, tendo virado um especialista em concursos públicos. Passava nuns, rodava noutros, fazia todos os que implicavam aumento de vencimentos.

Há três anos, Niquinho era juiz de direito em uma comarca do interior. Daí a idéia de Dona Candinha.

Ela soubera, em conversas com Dona Aurélia, que Niquinho ganhava, por mês, o que Ritinha ganhava por ano. A ex-vizinha disse, ainda, que ele tinha dois meses de férias por ano, mas isto só podia ser fantasia… Ela sempre lia que faltam juízes, daí a justiça morosa. Seria um desrespeito com a sociedade que paga a conta.

Agora, diante do diletantismo do ministro do STF, chegou a vez da professora Rita de Cássia. Certamente, todos os membros do Judiciário local seguiriam o modelo do membro da Suprema Corte.

Logo, o Niquinho poderá trocar seus vencimentos pelos da Ritinha. Por um ano, pelo menos…

Autor

André Arnt

Compartilhar:

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.