A data era 5 de janeiro de 1983. No Salão de Atos da PUCRS que abrigava a formatura da turma 279 de Comunicação Social. Os protagonistas eram jovens, em sua maioria, homens e mulheres, rostos livres de rugas e expressões de preocupações, cabelos em profusão, compridos, crespos, lisos. As gurias, por baixo das togas, escondiam os seus melhores vestidos. E os guris, camisas sociais passadas às pressas para a ocasião. Nas mãos, canudos representando os diplomas, que no século XXI foram confiscados pelo senhor Gilmar Mendes. Nas mentes, sonhos de carreiras promissoras e utopias regadas a vinho, caipiras e finais de semana em Santa Teresinha.
Hoje, os comunicadores daquele janeiro, comemoram a formatura. São protagonistas, em sua maioria na faixa dos 50 anos, rostos enrugados e marcas de expressões trabalhadas com Renew e assemelhados. Os cabelos raros e os fios brancos camuflados com tintura. As roupas das senhoras estão um pouco mais comportadas, como convém quando se alcança a fase dos enta. Os senhores grisalhos fazem das camisas sociais os seus uniformes diários de trabalho. Nas mãos dos que se formaram em jornalismo, a luta pela volta do diploma. Nas mentes, algumas carreiras abandonadas, desviadas e muitas de sucesso. E ainda alimentam as utopias nos encontros esporádicos.
Talvez a utopia não seja defendida atualmente com tanta veemência. Mas sempre com a fé de que um dia os nossos sonhos mais belos e justos serão realizados. Talvez algumas carreiras tenham sido abandonadas pelos desprazeres da profissão de jornalista: baixos salários, 24 horas de disponibilidade, a preferência pelos mais jovens. Talvez o Gilmar Mendes tenha confiscado mais do que o diploma: um pouco da esperança e do tesão de se doar inteiramente. Talvez os 30 anos pesem mais do que deveriam para organizar novos finais de semana em Santa Teresinha ou outras praias gaúchas. Talvez a coragem nos falte para reclamar de algum professor.
Mas ainda nos resta, na maioria, a certeza de recomeçaríamos tudo outra vez. Apesar dos baixos salários pagos nas redações. Mesmo com finais de semana sem folga e dias santos em trabalho. Apesar das 24 horas sempre à disposição do dono do jornal, rádio ou televisão. Mesmo com o diploma e seu futuro indefinido. A paixão pelo que se faz e a compreensão de que se faz da melhor forma é o que nos impulsionaria para um novo exame vestibular, para quatro anos na Faculdade dos Meios de Comunicação Social (Famecos), novas provas e outros desafios. O bom é que tudo seria regado a muito vinho de garrafão, caipiras e festas e reuniões.
A todos os meus colegas da Turma 279 da Famecos, que já se foram, que desistiram de algo no meio do caminho, que se perderam, uma saudade imensa. A todos os colegas da turma que ainda se encontram, que se relacionam, que buscam manter viva a chama da paixão que incendeia as nossas utopias, uma gratidão eterna pelos momentos divididos. E aos que se perpetuaram amigos, beijos e carinhos sempre, com a responsabilidade de que agora são partes indispensáveis da minha vida.
(Saio de férias no dia 15 de janeiro. Esta é, portanto, a minha última coluna antes deste período de descanso em que visitarei Fidel. Retorno só depois do carnaval).

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