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A velha bossa nova

Convidado a participar de um talk show sobre a Bossa Nova, ganhei o assunto para esta crônica. Descobri a Bossa Nova através do Paulo …

Convidado a participar de um talk-show sobre a Bossa Nova, ganhei o assunto para esta crônica. Descobri a Bossa Nova através do Paulo César Peréio – excelente imitador – no papel de João Gilberto. Era o emblemático 1958, ano da vez primeira em que o Brasil levantou a taça Jules Rimet. Para Nilda Maria, Paulo José, Milton Mattos, o próprio Peréio e eu, foi o ano em que fundamos o Teatro de Equipe, em Porto Alegre. Com o LP “Chega de Saudade”, na voz de João Gilberto, estava oficialmente fundada a Bossa Nova. Ao vivo, a bossa nova chegou bem mais tarde em Porto Alegre, em 1963, no ginásio do Leopoldina. E quem organizou o show foi este escriba mesmo. Vamos aos fatos. Entre os grupos que criavam e mostravam seus acordes de vanguarda, mesmo antes do sucesso do “Chega de Saudade”, um deles era o de Nara Leão, em cuja casa se reuniam, por exemplo, Menescal, Carlinhos Lyra, Chico Feitosa (Chico Fim de Noite), os irmãos Castro Neves e Ronaldo Bôscoli, este que, namorado de Nara, foi hóspede, inclusive, do complacente pai, Jairo Leão. Foi Bôscoli quem divulgou o movimento como “bossa nova” em sua coluna na Última Hora carioca, de Samuel Wainer, pois a Hebraica fizera um cartaz divulgando um show da turma com esse nome. . Samuel, namorado de Danuza Leão, com quem se casou, irmã de Nara, pediu para Ary Carvalho, diretor da UH gaúcha, promover um espetáculo de “bossistas” em Porto Alegre.

Meu passado cênico me devolvia aos palcos toda vez que a UH inventava uma promoção em que houvesse público. Antes, Elis Regina já recebera, de minhas mãos, a estatueta do Troféu J. Bronquinha, homenagem ao radialista, também uma promoção da UH.

E, no Leopoldina, creio, foi o primeiro contato de Elis, ao vivo, com a bossa, ela que, se mudando para o Rio de Janeiro, em 1964, acabou sendo uma grande estrela do Bottle’s e do Little Club, no Beco das Garrafas, Copacabana, dois templos de artistas que deram projeção internacional ao nosso ritmo.

Organizei o espetáculo que deveria ter Bôscoli e Miéle como apresentadores. Só deu Miéle, pois Bôscoli, covarde diante de um avião, mais uma vez foi só até o Aeroporto do Rio… Apresentaram-se Alayde Costa, Dóris Monteiro, Walter Santos (voz e violão, também baiano de Juazeiro, como João Gilberto) e um trio em que o grande destaque era o sax do Paulo Moura.

A pedido do secretário deles, consegui distribuir, naquele sábado, os artistas para shows, à meia-noite, em locais diferentes. Lembro-me que o trio instrumental foi para o Círculo Israelita e Dóris Monteiro para a boate de um amigo meu. Acabado o show no Leopoldina, fui ao jornal, escrevi a matéria e fui à boate, ouvir Dóris, excelente cantora. Ela me falou, de uma maneira nada elegante, que só começaria a cantar depois de receber o cachê.

Como eu fizera o favor, absolutamente gratuito, de arranjar aquele cachê extra para os artistas, senti-me ofendido. Fui ao meu amigo da boate, que riu muito e me deu a metade do cachê, em dinheiro. Cheguei para Dóris e disse: – Toma!

Ela contou o dinheiro e disse espantada: – Isso é só a metade do combinado.

– Eu sei, antes de começar a segunda parte, você receberá a outra metade, pois se você morrer ou tiver algum troço, o prejuízo é menor.

Saí e fui para o Treviso providenciar a ceia que ofereci para todos os artistas, à qual Dóris Monteiro não compareceu.

Em 1968, o ditador de plantão, por memorando e denunciando suas origens, mandava excluir dos quadros diplomáticos o poetinha-compositor Vinicius de Moraes: “Demita-se esse vagabundo, Arthur da Costa e Silva”.

Se o “vagabundo” fosse Costa e Silva e o signatário Vinícius, esse país teria sido outro.

Inté

Autor

Mario de Almeida

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