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A vendedora de laranjas

Por José Antônio Moraes de Oliveira

Em sua maioria, os pubs na Grã Bretanha ostentam nomes de reis, rainhas, lordes ou de grandes heróis de guerra. No entanto, um tradicional pub de Londres presta uma homenagem diferente a uma certa dama – uma humilde vendedora de laranjas, chamada Nell Gwynn, que foi amante do rei Charles II. Ela era uma mulher forte e corajosa, alguns séculos antes do empoderamento feminino ter sido inventado. 

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Talvez muito da narrativa não passe de lendas, mas há registros que, nos anos 1600, uma grande paixão aconteceu em Covent Garden, no centro de Londres. Um turista ocasional que estiver flanando pela Catherine Street, com certeza vai se encantar com a imponente fachada do Theatre Royal. Mas se olhar para o outro lado da rua, deve prestar atenção ao número 29. Ali funciona um dos mais antigos pubs da região de teatros de Londres, o Nell of Old Drury.

Os apreciadores dos bares e pubs ingleses são atraídos pelas placas coloridas alusivas a reis e rainhas e pelas fachadas pintadas de azul náutico, verde escuro ou de preto profundo, enfeitadas com letreiros dourados. No interior, encontramos a tradicional decoração vitoriana, com vitrais, espelhos e pesadas mesas e cadeiras de carvalho, feitas para acomodar por longo tempo os bebedores de cerveja. 

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Mas no caso do Nell of Old Drury, existe mais do que um ambiente acolhedor e algumas das melhores cervejas do mundo. Além dos clientes habituais, o bar vive lotado de curiosos, interessados em ouvir a lenda de Nell Gwynn. Se o turista tiver sorte, pode ser convidado a visitar a passagem subterrânea que liga o bar ao Theatre Royal, do outro lado da rua. A história deste túnel é contada pelo dono do pub, que repete o que ouviu do antigo dono – que por sua vez, ouviu do dono anterior. A lenda diz que a passagem era usada pelo Rei Charles II para visitas discretas à bela vendedora de laranjas que depois se revelou uma atriz talentosa e amante dedicada ao rei.

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Depois do terceiro pint de cerveja, as histórias ouvidas em pubs e tabernas ganham detalhes e novos temperos. Como no caso do Nell, a narrativa recua no tempo e conta que o local se chamava The Lamb, mas o nome foi trocado pelos vitorianos para The Sir John Falstaff, uma citação a Shakespeare, cujas peças eram encenadas no teatro do outro lado da rua. Algum tempo depois, devido ao caso de Charles II, o pub foi rebatizado em homenagem à beleza e coragem de Nell Gwynn. 

Desde o século XVIII, Convent Garden abriga um movimentado mercado de frutas e flores. Por centenas de anos, é frequentado por escritores, atores e diretores de teatro, além dos costumeiros curiosos e turistas. Até mesmo o cinema tem rodado por lá, como aconteceu em “My Fair Lady”. Em “Frenzy”, de Alfred Hitchcoch, podemos ver a fachada do Nell of Old Drury, incluindo a placa vermelha instalada ao lado da entrada. Ali se lê:

“Nosso pub deve seu nome a Nell Gwynn,

que foi a favorita do Rei Charles II.

Ela era uma vendedora de laranjas em Covent Garden e também uma atriz.

Aqui existe uma taverna desde 1660, quando o Theatre Royal foi inaugurado.”

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Sabemos que parte da mítica dos pubs inclui lendas rocambolescas e que muitas das centenas de ‘public bars’ de Londres, guardam saborosas histórias e alguns até mesmo figuram no folclore ou na história da cidade. Como é o caso do venerável Queens Elm, que usa este nome por ter abrigado uma rainha Tudor, durante uma violenta tempestade. Os criados espalharam serragem para secar  o piso da estalagem antes da passagem da soberana. Do episódio, permaneceu o nome e o costume de espalhar serragem no chão em dias de chuva.

É uma tarefa divertida em Covent Garden escolher um pub, pois existem dezenas deles em cada esquina, cada um mais charmoso do que o outro. 

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Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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