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Abaixo os ideais

60%. Meu nome é grana. Sou agenciador de projetos culturais. Não recebo dez por cento como está previsto em lei. 10% é para os …

60%. Meu nome é grana. Sou agenciador de projetos culturais. Não recebo dez por cento como está previsto em lei. 10% é para os trouxas.Meu negócio é muito mais. E, para os honestos, esses incompetentes, eu deixo o meu desprezo.

O melhor é, já ao fazer o projeto – que será rigorosamente maquiado na prestação de contas – prever que 60% dele vá para o meu bolso. Afinal, sou eu quem tem os contatos. Sou eu quem tem a empresa patrocinadora na mão. Sou eu quem é amigo dos amigos dos políticos de todos os partidos. Meu nome é 60%. Por menos do que isso, só agencio para os meus cúmplices, digo, amigos.

Dane-se que o dinheiro saia dos cofres públicos, dane-se que centenas de pessoas pensem e desenvolvam leis visando beneficiar a distribuição da cultura, dane-se que outra centena de pessoas fiscalize os projetos e as prestações de contas, não deixando passar nenhuma irregularidade. Somos mágicos das planilhas. Vou assim sobrevivendo dessas golfadas esporádicas de muito dinheiro.

Só trabalho com gente que pensa grande. Com grandes peixes. Esse negócio de livro chega a ser piada de tão fácil. Sou ainda mais chegado a megaeventos espetaculares, principalmente quando o lance é filosofia.

O ruim é que, enquanto a gente está montando o patrimônio pessoal, à custa do dinheiro de isenção de impostos, os caras do centro do país começam a trocar as figurinhas, as peças principais da brincadeira. Vai dar muito mais trabalho para a gente convencer os vassouras-novas a entrarem no esquema. E eles entram, com certeza. Todos entram.

O hilário é quando se está com a chave do cofre e chegam esses grupelhos de pequenos produtores, que até fazem bons projetos culturais, e – vejam só o ridículo – pelo custo real. Eles defendem a melhor distribuição dos recursos das leis de incentivo e exigem a aplicação da lei para a produção diversificada de cultura e oferecem ao captador apenas 10%. Apesar de previsto na lei, chega a ser deprimente.

Como é que eu vou viver com 10%?

Meu nome é 60% e não tenho apelido. Não me chamem de atravessador, nem de picareta, nem mesmo de vendedor. Eu sou é o dono do dinheiro, das fontes  e dos amigos dos amigos do poder. Detesto gente humilde que vive pedindo grana para realizar projetos a custos reais de produtos interessantes e acessíveis para a população, sem ao menos prever um superlucro presumido. O meu cachê.

Me dá nos nervos essa tal de Fu Lana, que vem sempre aqui, falar da importância de valores morais. Pra mim, valores são todos 60%, e são meus. Uma pena. Poderíamos até trabalhar juntos, mas Fu Lana não maquia orçamentos. Faz as coisas certinhas. É a Maria do Passo Certo.  E ainda convence parceiros patrocinadores a apoiarem seus projetos, pois, afinal, seus produtos contêm algum talento, temos de admitir. Produzem conhecimento. Mas sem os meus 60%, nem com vela amarela.

Morte aos idealistas. Eu transformo qualquer assunto em um livro carésimo, luxuosérrimo. Lindo. E caro. Muito caro. Para cobrir os meus suados 60%.

Danem-se os incompetentes que não sabem fazer dinheiro. Fu Lana e sua catrefa. Meu nome é 60%. Pra mais. E tenho o Rio Grande do Sul inteiro no bolso.   

Autor

Clo Barcellos

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