Durante décadas, a FIFA vendeu ao mundo uma ideia poderosa: a Copa do Mundo seria o maior encontro de povos do planeta. Um evento capaz de unir culturas, derrubar fronteiras e celebrar aquilo que existe de mais universal no esporte.
Bonito no discurso. Na prática, a entidade parece ter abandonado os próprios princípios.
Quanto mais nos aproximamos da Copa do Mundo de 2026, mais evidente fica o absurdo que é permitir a realização do torneio nos Estados Unidos diante de tudo o que está acontecendo.
E não, a questão não é política. É coerência.
Como aceitar que o maior evento esportivo do planeta aconteça em um país onde torcedores, jornalistas, dirigentes, árbitros e até atletas enfrentam dificuldades para entrar?
Como aceitar que uma Copa do Mundo seja realizada em um ambiente de restrições migratórias, incertezas diplomáticas e tensão militar?
Os exemplos se acumulam.
O caso mais chocante talvez seja o do árbitro somali Omar Abdulkadir Artan. Selecionado pela própria FIFA para trabalhar na Copa do Mundo, ele se tornaria o primeiro árbitro da Somália a participar de um Mundial. Mesmo portando visto válido e credenciamento oficial, foi impedido de entrar nos Estados Unidos.
Pense no tamanho do absurdo.
A FIFA escolhe o profissional.
A FIFA o credencia.
A FIFA o escala.
E o país-sede simplesmente o impede de entrar.
Se nem um árbitro oficial da competição consegue atravessar a fronteira, que mensagem está sendo enviada ao resto do mundo?
Mas o problema vai muito além.
O caso do Irã talvez seja ainda mais simbólico.
A seleção iraniana garantiu sua vaga na Copa, mas viu sua preparação ser impactada por restrições e dificuldades envolvendo vistos. A situação chegou ao ponto de a delegação precisar organizar sua estrutura fora dos Estados Unidos, utilizando o México como base logística para a disputa do torneio.
É difícil imaginar algo mais contraditório.
Uma seleção classificada para a Copa do Mundo não consegue ter a tranquilidade de permanecer no país que está sediando a própria competição.
Estamos falando de atletas, dirigentes e profissionais ligados ao futebol que deveriam estar sendo recebidos como convidados de honra do maior espetáculo esportivo do planeta.
Em vez disso, enfrentam barreiras burocráticas, incertezas e constrangimentos.
Ao mesmo tempo, organizações de direitos humanos alertam para um ambiente de medo entre imigrantes e visitantes estrangeiros. Há preocupações com operações migratórias, abordagens e detenções durante o período do torneio.
Que tipo de Copa é essa?
Uma Copa deve ser um convite ao mundo. Não um teste de imigração.
Mas existe uma questão ainda mais grave.
Os Estados Unidos estão envolvidos em um conflito militar internacional. E embora não exista uma regra automática da FIFA proibindo que países em guerra sedem torneios, é impossível ignorar a incoerência.
Quando a Rússia invadiu a Ucrânia, a FIFA não teve dificuldades em adotar medidas duras, afastar equipes e assumir um discurso de defesa de valores e princípios.
Agora, diante de um país envolvido em ações militares, diante de restrições de entrada que afetam participantes da competição e diante de uma série de situações que afrontam o espírito do torneio, a entidade prefere o silêncio.
A pergunta é inevitável.
Os princípios mudaram ou apenas mudou o país envolvido?
A sensação que fica é a de que a FIFA possui um conjunto de regras para alguns e outro para outros.
E isso destrói a credibilidade de qualquer instituição.
O futebol sempre foi apresentado como uma linguagem universal. Um espaço onde povos rivais podiam se encontrar dentro das quatro linhas e deixar as diferenças do lado de fora.
A Copa do Mundo deveria representar exatamente isso.
Mas quando um árbitro é barrado mesmo tendo visto válido.
Quando uma seleção precisa buscar abrigo em outro país para disputar o torneio.
Quando atletas enfrentam incertezas sobre sua entrada no país-sede.
Quando torcedores de determinadas nacionalidades não sabem sequer se conseguirão chegar aos estádios.
E quando tudo isso acontece sob a sombra de um conflito militar internacional.
A discussão deixa de ser esportiva. Passa a ser moral.
A FIFA gosta de repetir que o futebol une o mundo.
Mas ao permitir uma Copa do Mundo nessas condições, a entidade está fazendo exatamente o contrário.
E o nome disso não é inclusão. Não é integração. Não é respeito. É incoerência.
Ou, para usar uma expressão que combina perfeitamente com o momento: Absurdo by FIFA.


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