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Aconteceu em Punta del Este

Por Marino Boeira

Numa das minhas visitas a Punta del Este, em vez de ficar num hotel, resolvi alugar um apartamento de temporada.

A moça que foi me levar a chave era muito simpática e bem informada sobre política, na qual disse ter uma posição de esquerda.

Querendo ser gentil com ela, falei da admiração de nós brasileiros pelo seu ex-presidente Pepe Mujica.

Ela agradeceu, mas não levou o papo adiante. Como insisti no assunto, ela disse que às vezes Mujica a deixava um pouco envergonhada com seus procedimentos.

Na hora atribui o fato a um preconceito contra os políticos com viés populista, mas depois lembrando o que ela disse, vi que tinha certa razão.

As classes dominantes sempre se acharam no direito de usufruir das melhores coisas que a vida oferece, vivendo nos melhores lugares, tendo os carros do ano, vestindo os trajes mais finos, comendo e bebendo com qualidade.

Para os outros, na melhor das hipóteses, uma casa numa vila popular, carros de segunda mão e feijão com arroz todos os dias.

Pepe Mujica não precisaria vestir-se mal, andar num fusca caindo os pedaços e viver na periferia de Montevidéu. Embora ele certamente fizesse isso para mostrar um certo ascetismo que o identificasse com a classe social que pretendia representar politicamente, o certo é que ele estava aceitando o papel que a classe dominante impõe aos mais pobres.

Além disso, como Presidente, ele representa o povo de um país, que no caso do Uruguai não aceitaria jamais uma posição subalterna perante os outros países. Uma parte desse posicionamento passa por uma apresentação pública sóbria e bem posta.

É interessante que muitos políticos que se pretendem representantes dos setores populares se limitem a idealizar essa representação através da forma descuida de se vestir e de hábitos de consumo, quando ela deveria se dar pela defesa de idéias políticas contrárias ao establishment.

Nós brasileiros não podemos esquecer que Lula, quando ainda não havia se transformado no político tradicional que é hoje, cultivava muito essa forma de se apresentar, da qual Pepe Mujica foi o precursor na América do Sul.

Autor

Marino Boeira

Formado em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), foi jornalista nos veículos Última Hora, Revista Manchete, Jornal do Comércio e TV Piratini. Como publicitário, atuou nas agências Standard, Marca, Módulo, MPM e Símbolo. Acumula ainda experiência como professor universitário na área de Comunicação na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e na Universidade do Vale do Rio do Sinos (Unisinos). É autor dos livros ‘Raul’, ‘Crime na Madrugada’, ‘De Quatro’, ‘Tudo que Você NÃO Deve Fazer para Ganhar Dinheiro na Propaganda’, ‘Tudo Começou em 1964’, ‘Brizola e Eu’ e ‘Aconteceu em…’, que traz crônicas de viagens, publicadas originalmente em Coletiva.net. E-mail para contato: [email protected]
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