Em 1975, depois de participar do Festival do Cinema Publicitário, em Veneza, eu estava em Roma pela primeira vez na vida.
Minha programação incluía todas aquelas visitas tradicionais – o Coliseu, o Fórum Romano e o Vaticano, obviamente para ver a Capela Sistina – e certamente ver algum filme importante que a ditadura militar não permitia que fosse visto no Brasil. Iria passar apenas dois dias na cidade e precisava me organizar para cumprir esse programa.
Descobrira que naquele mês de julho os cinemas estavam programando a exibição de um filme do Pier Paolo Pasolini que estava dando o que falar. Era Saló ou os 120 Dias de Sodoma. Pasolini, do qual já conhecia alguns bons filmes como Teorema, Il Decameron e Contos de Canterbury, não era um dos meus diretores preferidos, mas mesmo assim não pensei em perder mais um dos seus filmes.
O filme, baseado numa história do Marquês de Sade, transforma Sodoma em Saló, uma cidade que os nazistas alemães tomaram conta no final da guerra, depois que a Itália abandonara o Eixo. Quatro jovens fascistas se reúnem num castelo com 16 moças para uma grande orgia, envolvendo drogas, masoquismo e mortes. Naquele mesmo dia, o Papa Paulo VI tinha programado uma aparição na Praça de São Pedro para sua tradicional benção aos peregrinos. Lembrei do bordão de que não se pode ir a Roma sem ver o Papa.
Os horários combinavam: a aparição do Papa estava marcada para as 5h da tarde e havia um cinema, a razoável distância da Praça de São Pedro, programando Saló para as 7h da noite. Uma combinação perfeita: pularia de Sua Santidade, o Papa, para as sacanagens de Saló. Cheguei cedo na Praça de São Pedro e já havia uma multidão esperando ver Paulo VI aparecer naquela tradicional janela do Vaticano. Um locutor anunciava em várias línguas, inclusive em português, que o Papa logo iria aparecer. Ele foi repetindo isso de tempos em tempos e nada do Papa. Eu olhava para o relógio e ia ficando cada vez mais apreensivo. Às 6h30 em ponto, quando o locutor anunciou que logo o Papa iria aparecer, eu desisti. Não ia perder o Pasolini pelo Paulo VI.
Sai rápido em busca do cinema, que não era muito longe. Foi quando tive oportunidade de conhecer duas características dos cinemas na Itália. Primeiro, os espectadores não formam fila diante da bilheteria. É um bolinho, com empurra-empurra, até que você consegue chegar ao bilheteiro e comprar seu ingresso. Segundo, o filme não é exibido por inteiro mesmo tendo uma metragem normal, como era o caso de Saló. Na metade do filme, ele é interrompido para que o tradicional baleiro faça sua aparição. Não sei se continua sendo assim, mas na época era desse jeito.
E o filme? Bom, como obviamente não tinha legendas, ficou meio difícil entender tudo. Tempos depois vi o filme no Brasil.
Recomendo.



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