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Aconteceu em São Sebastião do Caí

Por Marino Boeira

Possivelmente porque incomodava demais em casa, sendo praticamente o filho único, já que meu irmão, Maurício, era sete anos mais velho, eu, com três ou quatro anos, fui mandado para o Jardim de Infância do Grupo Escolar Farroupilha.

Como não tinha idade suficiente para o Primário, fui ficando no Jardim da Infância.

Quando chegou a idade de entrar no primeiro ano primário, meus pais se mudaram para São Sebastião do Caí.

Ao contrário da escola de Farroupilha, que me parecia ampla e acolhedora, a de São Sebastião do Caí funcionava em antigas instalações militares e conservava a aparência hostil de um quartel.

Nos primeiros dias de aula fizeram uma seleção para separar a turma, que era muito grande e eu fiquei entre mais adiantados, porque já estava praticamente alfabetizado com as primeiras letras que aprendera no Jardim de Infância de Farroupilha.

A professora que recebera a todos no primeiro dia, chamada Marina Pinho, acabou ficando com a turma dos mais atrasados.

Não durou uma semana a divisão e ela entrou na minha sala de aula para me requisitar. Eu iria ficar na turma dos mais atrasados, possivelmente para que ela pudesse me transformar no seu projeto como professora: o ser o melhor aluno de todo o primeiro ano.

Duas ou três vezes por semana, eu ia, às tardes, na casa dela, numa rua próxima do rio, para tomar café e repassar as lições de casa.

No fim do ano, não a decepcionei e fui o melhor aluno do primeiro ano primário daquela escola pública de São Sebastião do Cai.

No ano seguinte, voltamos a morar em Farroupilha e eu nunca mais retornei a São Sebastião do Caí, nem ouvi falar da professora Marina Pinho.

Porém, nunca esqueci seu nome, nem a sua lição, de que devemos tentar sempre ser o melhor da turma.

Não cumpri essa meta nos anos seguintes, principalmente no ginásio e no colégio, onde a Matemática sempre pareceu estar acima de minhas forças.

Certamente não foi culpa dessa minha primeira professora, que guardo o nome até hoje, Marina Pinho.

Autor

Marino Boeira

Formado em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), foi jornalista nos veículos Última Hora, Revista Manchete, Jornal do Comércio e TV Piratini. Como publicitário, atuou nas agências Standard, Marca, Módulo, MPM e Símbolo. Acumula ainda experiência como professor universitário na área de Comunicação na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e na Universidade do Vale do Rio do Sinos (Unisinos). É autor dos livros ‘Raul’, ‘Crime na Madrugada’, ‘De Quatro’, ‘Tudo que Você NÃO Deve Fazer para Ganhar Dinheiro na Propaganda’, ‘Tudo Começou em 1964’, ‘Brizola e Eu’ e ‘Aconteceu em…’, que traz crônicas de viagens, publicadas originalmente em Coletiva.net. E-mail para contato: [email protected]
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