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Acordando lembranças

O ano era 1971, eu viajava pela Europa e recebi no hotel, em Roma, uma carta da companheira. Só lamúrias. Peguei um postal e …

O ano era 1971, eu viajava pela Europa e recebi no hotel, em Roma, uma carta da companheira. Só lamúrias. Peguei um postal e mandei: Quando você acordar alegre, cante uma canção e escreva uma carta. Quando triste, cante uma canção.

*

Anos 1967 e 68, sábados, domingos e feriados, artistas e publicitários, algumas esposas, parentes e eu jogávamos vôlei na praia, bem na divisa de Ipanema com Leblon. O publicitário Osvaldo Assef morava no 13 da Rua Paul Redfern, última travessa da Visconde de Pirajá antes do Jardim de Alá. A sede do Assef Praia Clube era na garagem do próprio e nossa rede, a menos de 100 metros.

Certa manhã, eu, de dieta rigorosa, fui saltar para fazer um bloqueio, o calção começou a cair, tentei abortar o salto, o que deve ter sido muito grotesco. Fiquei nu. Até hoje lastimo não ter sido espectador desse ato, pois a reação da plateia não poderia ter sido mais calorosa, com a maioria se contorcendo de riso e se jogando na areia para rir mais à vontade. Quando os atletas começaram a se recompor, chegou minha vez de rir, pois o amigão Magaldi mais parecia um gigantesco bife à milanesa.

*

Já que estou na onda aquática, passemos para a água doce. Poucos anos depois, jogava-se, à noite, piscibol na casa do Magaldi, que se mudara para o Jardim Botânico. Aquele basquete na piscina era, como no nosso vôlei, uma motivação para reunir amigos, um alegre convívio animado pela eau de vie, no caso, um bom scotch, vodca russa ou polonesa. O publicitário paulista João Baptista Pacheco Fernandes, radicado no Rio, como boa parte dos participantes, apesar de ter um só braço, jogava com eficiência. Certa noite, eu, dentro da piscina, comecei a reparar na idade daquele elenco aquático e perguntei ao João Baptista, ao lado:

– Você acha que nossos pais, com nossa idade atual, poderiam estar aqui, como estamos?

– Nunca, em tempo algum.

Verifiquei que, na roda, naquela noite, o caçula era eu, que já soprara 50 velinhas.

*

Parêntese é o que se interpõe num texto para adicionar informação, normalmente explicativa, mas não essencial. Lá vou eu. Em dezembro de 1941, quatro pescadores cearenses se lançaram ao mar e dois meses depois desembarcaram no Rio. A temeridade dos nortistas – até aquele ano de 1942 Nordeste e Norte eram ambos a Região Norte –, de tão arriscada, acabou ganhando espaço até na imprensa americana, cuja leitura fez estalar a cabeça de Orson Welles e se transformou no segundo episódio do seu documentário – It’s All True. Uma rua em Ipanema virou Jangadeiros e, na Praça General Osório, a poucos metros, surgiu o bar Jangadeiros, onde nos anos 1960 conheci Jaguar, meu garçom Cabeção, reencontrei velhos amigos, e Albino Pinheiro, criador e animador da Banda de Ipanema, passava o chapéu recolhendo o cachê da banda propriamente dita. O Jangadeiros e a Banda fazem parte de um Rio que passou na minha vida. Lá, conheci o pintor, desenhista, escultor e joalheiro Caio Mourão, um paulista que, como eu, radicou-se no Rio. Houve um grande atrito entre ele e João Baptista Pacheco Fernandes, o que me obrigou, na primeira vez que encontrei Caio, a dizer-lhe que ao ocorrer qualquer mal-entendido entre ele e eu, que, por favor, me procurasse imediatamente. Ele estranhou o pedido e eu expliquei. Acontece que Caio não deixou por menos, apelidou meu amigo maneta de “Saci errado”.

Os dois já se foram, mas a maldade eu não esqueci.

Autor

Mario de Almeida

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