“E à medida que saboreava aqueles pratos,
sentia que se adelgaçava o negrume
que desde a véspera lhe pesava na alma…”.
(José Maria Eça de Queirós)
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Quando chegamos em terras portuguesas, a primeira sensação é que somos estrangeiros em nossa própria história. Buscamos os mesmos caminhos de reis, poetas e aventureiros que não existem mais. Porém, adivinhamos sua presença nas aldeias, vales, montanhas e até nestas ruas de pedras por onde andamos. Em nossa geografia ancestral, tentamos repetir os passos daqueles homens sem medo, que buscavam caminhos nunca dantes navegados.
Ao abrir as janelas da pousada para a pequena praça, os sotaques soam musicais e os gestos, reconhecidos na memória perdida. A brisa que sopra do Tejo é a mesma que inflava a alma e os sonhos dos navegantes e poetas. E da cozinha mais adiante, sobem aromas que alimentam a vontade de ficar e de não prosseguir viagem.
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A caminhada pelo Rocio é acompanhada por lembranças de sabores e delicadezas de outras jornadas. Uma demorada pausa diante de uma vitrina quase manuelina, exibindo mexilhões, ouriços do mar, lagostas e lagostins recém-pescados. Alguns passos adiante, de um pátio mourisco com uma fonte do século XIX, chegam sons de guitarras e perfumes de caçarolas ao fogo. A excitação da redescoberta e o apetite crescem de mãos dadas.
Carregado por um repente, sigo adiante até a Rua da Misericórdia. Algo me sussurra que já estive aqui, neste número 37. Revejo os vitrais coloridos, cristais e as madeiras, marcadas pela pátina do tempo. O maitre se apresenta – seu nome é Basilio, nascido na Serra da Estrêla, berço dos grandes queijos portugueses. Sugere o prato do dia, o Cabrito Assado a Souto-Mor. Não me emociono, e ele acrescenta que a Parilhada de Mariscos é feita com pescados do dia. Hesito, o homem sorri, condescendente, de um jeito de quem já aplacou a gula de muitos viajantes:
“- Minha recomendação pessoal é nosso Pato assado com arroz à portuguesa, um acepipe que sempre deixa as pessoas felizes”.
Como entrada, indica o Foie Gras com Pera, salteado em redução de vinho rosê com massa folhada. Para suavizar a espera, me ocupo com o cardápio, onde, ao lado da longa lista de tentações da cozinha e da adega, se conta a história da casa e das personalidades que aqui saciaram seus grandes apetites.
Sou instruído no imaginário lisboeta, que informa que estou em uma casa com 225 anos de existência, o que o faz o segundo mais antigo restaurante da Península Ibérica, apenas ultrapassado pelo Sobrino de Botín, de Madrid, e deixando o Can Culleretes, de Barcelona, no terceiro lugar da lista.
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Quando chega a hora da sobremesa, o dourado toucinho do céu chega escoltado de mais histórias sobre o vetusto restaurante. O maitre Basilio aponta para uma mesa, que jura ter sido a predileta de Eça de Queirós. Comenta que ali era um dos pontos de reunião dos artistas, intelectuais e jornalistas da época queirosiana. E que eles tinham por hábito se encontrar no Chiado, na Livraria Bertrand, tomar um café na A Brasileira, beber uma cerveja no Trindade e chegar para o almoço no Tavares Rico. O homem se entusiasma e conta que a memória da casa ainda registra a refeição preferida de Eça de Queirós:
“Ele começava com uma sopa de alcachofras com ovas de carpa, depois pedia o filé de cordeiro, macerado em Madeira com purée de nozes e terminava com amoras maduras geladas em éter”.
Inspirado por evocações de outros tempos, saio a caminhar até a Rua do Alecrim, até encontrar a pequena praça, onde está o monumento à José Maria Eça de Queirós, contemplando uma musa de braços abertos e seios nus.
Prossigo em direção ao Rossio, procurando pelo Café Nicola. Talvez encontre por lá um velho garção que saiba de histórias dos tempos em que Fernando Pessoa e Bocage eram clientes de todos os dias.


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