“Não sei quantas coisas se empilham em minha solidão.
São coisas que um homem tem medo de lembrar.”
(Ricardo Güiraldes)
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Naqueles tempos, a estação de trens funcionava como uma sala de visitas da cidade. Ali chegavam amigos e parentes, muitos deles longínquos, quase esquecidos. E dali partiam outros queridos, afilhados, irmãos ou filhos que iam tentar a sorte em outras paragens. Era um lugar carregado por emoções, onde se alternavam sonoras alegrias e sombrias incertezas. E quando a locomotiva apitava, soltando fumaça e vapor, chegava a hora dos adeuses e abraços, os lenços assoando narizes e escondendo tristezas.
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Na estação da antiga Viação Férrea de Porto Alegre, havia uma figura imponente que permaneceu inesquecível em nossa memória coletiva. Sabia sobre horários e atrasos. Dava o sinal de partida para os trens e conferia cada detalhe na plataforma de embarque. Quando uma locomotiva apitava ao longe, anunciando a chegada, sacava seu Patek-Philippe do bolso do colete e conferia o horário. Se assentava com a cabeça, o trem estava no horário. Em caso contrário, o maquinista teria que explicar o porquê do atraso. Ele era Vergilio Vieira, o Chefe-de-Estação.
Era capaz de lembrar o nome de quase todos que perambulavam pelas plataformas, aguardando a chegada ou a partida dos trens. Ouvia suas lamúrias e se condoía com elas. Cada pessoa era uma estória. E comentava quando bebia seu chá de beladona:
“Como não ficar penalizado diante daquele homem magro, que descera do trem de Cruz Alta segurando, apertado no peito, um pão e um pacote de linguiça, esperando encontrar o filho que não estava lá?”.
Ele não conseguia esquecer o dia em que deu partida a um trem lotado de jovens soldados, convocados para lutar na revolução em São Paulo. Os olhares espantados de meninos e as fardas mal-enjambradas ficaram muito tempo em sua memória. E, quando chegou o trem com os sobreviventes, não quis ficar por ali. Sabia que eram poucos os meninos que voltavam, muito poucos. E nada de festa para recebê-los. Nem banda de música, nem figurões de chapéu e gravata.
Houve muitos episódios, alguns engraçados, como quando um vagão de gado descarrilou, soltando bois e vacas e provocando uma correria danada. Outros mais tristes, que pegavam o velho Vergilio de jeito, como estranhas pessoas que surgiam do nada e depois desapareciam. Como aquele velho de cabelos ralos, que aparecia sempre às 11h dos sábados, quando chegava o trem da Fronteira. No início, achou que ele estava à espera de um filho, uma esposa. Mas, como voltava todos os sábados, Vergilio Vieira descobriu que ele simplesmente fingia esperar alguém que nunca iria chegar.
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Hoje em dia, as longas despedidas ao lado de locomotivas só existem nos velhos filmes preto-e-branco. Os trens de antigamente traziam retornos e saudades. Pessoas que ansiavam por um longo abraço, um beijo. E também havia muitas encomendas, enviadas de longe – um vidro de compota de figo, um rolo de fumo negro, um pacote bem amarrado de lombinho de porco. Muitas não eram reclamadas e ficavam esquecidas no depósito. O velho Virgílio olhava aquelas caixas e pacotes, sem saber o que fazer. Sem coragem de jogar tudo fora. Afinal, eram vestígios de vidas, como as cartas de amor esquecidas no posta restante.
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