Colunas

Afastai de mim as tentações da Feira do Livro

Não quero passear pelos corredores da 61ª Feira do Livro, que se iniciou na sexta-feira, dia 30 de outubro, ocupando seu tradicional espaço na …

Não quero passear pelos corredores da 61ª Feira do Livro, que se iniciou na sexta-feira, dia 30 de outubro, ocupando seu tradicional espaço na centenária Praça da Alfândega, encravada no Centro Histórico de Porto Alegre. Nem quero folhear os livros expostos estrategicamente nas barracas para despertar a curiosidade dos leitores. Muito menos escaranfuchar os dedos afoitos nas caixas envelhecidas que hospedam os sebos e seus preços atrativos. Não aceitarei os convites para as sessões de autógrafos de conhecidos e de estranhos que colocam suas assinaturas nos livros recém-lançados. E nem desejo encontrar os amigos e amigas para um café, um chope ou um happy na Praça de Alimentação da feira. Em nome de Nosso Senhor das Pessoas Sem Dinheiro, da Nossa Senhora das Endividadas do Cartão de Crédito e do Santo Protetor do Limite do Cheque Especial, afastai de mim todas as tentações da Feira do Livro.

Será a primeira vez em muitos e muitos anos que não pretendo caminhar pelos corredores estreitos da Feira do Livro e que não irei sentir o perfume das paineiras, ipês e jacarandás, a misturar-se levianamente com o aroma das páginas dos livros pendurados nas partes superiores das barracas das mais variadas e respeitadas livrarias e editoras. Será a primeira vez, arrisco dizer desde 1979, que não regressarei dos meus passeios diários à feira com as mãos carregadas de sacolas entupidas de livros (lançamentos e os usados). E nem precisarei correr para fugir da chuva inoportuna que sempre insiste em cair desavisadamente em algum dos dias da feira, E também não irei, na edição do evento em 2015, tirar a foto de todos os anos ao lado das esculturas dos poetas Mario Quintana e Carlos Drummond de Andrade, idealizadas por Francisco Stockinger. Por favor, Nosso Senhor de todos os Santos, mais uma vez afastai de mim todas as tentações da Feira do Livro.

Para não sucumbir aos impulsos tão presentes na Feira do Livro, fiquei distante da Praça da Alfândega no feriadão de finados. Passei o domingo e a segunda-feira do feriado enfurnada em casa, com meus botões, meus CDs, meu sono atrasado, meus pesadelos, meus sonhos, meus ais e meu neto canino, o shih tzu Dalai. Nada de ceder ao desejo de ver o Concerto da Orquestra Villa-Lobos, espetacularmente regida pela colega do Ginásio Mãe de Deus, professora Cecília Rheingantz Silveira, no dia 1º de novembro, no Teatro Carlos Urbim. Explico antecipadamente: a apresentação das crianças e dos jovens da Vila Mapa que compõem a orquestra, era gratuita. Mas quem disse que depois de prestigiar o concerto, esta que vos escreve não iria, assim meio sem compromisso e sem a mínima intenção (será?), perambular pelas barracas da feira e não resistir à emissão de cheques e cheques pré-datados? Obrigada Santa Edwiges, protetora dos pobres e endividados, por me zelar e me afastar de todas as tentações da Feira do Livro.

Livrai-me, por favor, Santo Expedito (dizem que ele é o das causas urgentes e impossíveis), de comprar para entulhar mais as estantes do apartamento algumas obras que, com certeza, me fariam uma criatura muito, mas muito mais feliz. Como o livro do jornalista Paulo Henrique Amorim, intitulado “O Quarto Poder, o Outro Lado da História”, que vou depois pedir emprestado para a amiga Carla Seabra, que exibida demais foi até a sessão de autógrafos (invejei). Ou o livro já referido aqui na coluna em que falo sobre a minha lista de presentes de Natal do jornalista Arthur de Faria: “Elis, uma biografia musical”. E as obras da Libretos: “Nega Lu, uma Dama de Barba Malfeita”, do Paulo César Teixeira; e as publicações “Águas do Guaíba”, “Mercado Público: o palácio do povo”, ambas do jornalista Rafael Guimaraens.

Pois descubro que o jeito para evitar novas transgressões econômicas e não aumentar as dívidas nos cartões e no cheque especial é desviar-me de todo e qualquer caminho que possa me levar até a 61ª Feira do Livro. Pois confesso que uma maneira de não cair na tentação da gastança da Feira do Livro é fugir dos arredores da Praça da Alfândega. Pois preciso admitir: o evento que reúne os livros na praça nem completou ainda uma semana e já sinto uma coceira nas mãos de vontade de folhear e folhear as obras que enfeitam a Alfândega e uma vontade difícil de controlar de comprar pelo menos um (mas seria somente um) dos livros citados acima. Pelo amor de Deus, do sangue de Jesus, do Pai Todo Poderoso: não permita que eu me aproxime deste paraíso literário. Por favor, São Judas Tadeu, o santo dos desesperados, afastai de mim todas as tentações da 61ª Feira do Livro. Amém.

Autor

Márcia Martins

Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Escola de Comunicação, Artes e Design (Famecos) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editorias de Economia e Geral, e em assessorias de Comunicação Social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em diversas antologias, ex-diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors) e presidenta do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA) na gestão 2019/2021. E-mail para contato: [email protected]
Compartilhar:

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.