Um livro que atravessa cinco anos pode ser muito representativo. E muito seletivo, pois crônicas semanais escolhidas diminuem o esforço do garimpo. Quando a autora é jornalista, o serviço é adicional. Em cada texto, uma sugestão cultural: um conto, filmes, livros, shows e referências múltiplas.
Agora eu era surgiu de um exercício da infância. Na verdade, de uma dica de Chico Buarque explicando como compôs a canção João e Maria. Cláudia Laitano ligou as pontas e, então, propõe: faz de conta que ela agora era a cronista e nós, seus leitores. E aos poucos, vamos conhecendo o cotidiano pinçado dentre aquelas situações que fazem a literatura ficar mais gostosa: leituras, cinema, confissões, memórias, filhos, filosofia e, recorrente, o hábito profissional.
A tonalidade é jovial. Não poderia ser diferente. Não se trata de um texto de um veterano de guerra. Na categoria dos “enta”, Cláudia é mocinha e menina, literalmente. Nos textos, identificamos aquela que se esconde correndo, no quarto, no domingo à tarde, fecha as portas e as frestas da janela e tenta ler Monteiro Lobato. No entanto, os homens da casa, sempre eles, colocam o radinho a mil, e o resultado é uma narração divertida, em Eu e o Valdomiro. Fu Lana reconheceu-se integral naquele esforço feminino em manter qualquer prioridade do gênero naquelas tardes esportivas. Desistiu há menos de uma década, desde que entrou nos “enta”.
E o Chico? Único. Em uma de suas entrevistas em jornadas profissionais, Cláudia conseguiu sentir-se a representante de todas as mulheres simples e mortais, que nunca se imaginariam ao lado do mito, ombro a ombro. Se fosse com Fu Lana, seria uma cena qualquer, caipira. Como lidar com uma situação dessas? Em sua brejeirice, Cláudia a tornou real e conta sem paetês na crônica Paratodos, talvez a melhor. Ela é a voz da timidez, da pessoa verdadeira e, ainda assim, só conseguiu olhar para baixo. No texto, conseguimos ouvir a sua vozinha interior, e só ela para descrever a cena.
As tiradas da cronista devem mesmo ser sublinhadas. A dica não é de Fu Lana. Em Fazes-me falta, Cláudia nos fala sobre esse prazer inusitado. “Sublinha-se menos depois de uma certa idade”, alerta, afirmando, no entanto, que o fazemos de um outro modo, “deixando que o prazer da leitura decante na nossa memória”.
Imagine-se uma mulher descolada, culta, sensível, que detesta dirigir, não entende e tem (de vez em quando) até inveja do entusiasmo dos homens com o futebol, mãe moderna e profissional de comunicação hiper-atarefada. Todo o texto vai lincar você a uma dessas opções. O diferente e exclusivo é o ritmo. Algo como “o esforço de explicar o que nos distingue da lula colossal ou do cusco da esquina” ou “não é bolinho envelhecer em um mundo sem modelos”.
Para Cláudia, um filme que conquista “é uma história bem contada, atores geniais e um cutuco emocional e/ou intelectual”. Para Fu Lana, um bom livro de crônicas deve ter humor, uma pitada de coragem e uma visão ampliada de pequenas cenas. Além da frase final em cada texto, que em si, já dá uma pequena grande obra. Agora eu era tem tudo isso. Portanto, a brincadeira terminou e Cláudia precisará encarar a realidade. Ela é uma cronista.

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