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Ainda é tempo de mudar

Por Márcia Martins

A música “Epitáfio”, que ficou famosa na voz da banda Titãs, em determinada parte de sua letra conclui que era aconselhável ter amado mais, chorado mais, ter visto o sol nascer, arriscado mais, errado mais e ter feito tudo o que se queria fazer. Nestes meus dias de ainda isolamento em decorrência da Covid-19, tenho pensado muito em inúmeras situações – hoje impossíveis de serem executadas pela solidão do confinamento – que poderiam ter tornado os meus dias bem mais amenos, menos rancorosos, encurtado a duração de brigas desnecessárias e deixado a minha rotina menos tediosa e mais desafiadora. 

Quantas vezes eu deixei de apreciar os fenômenos mais comuns e disponíveis da natureza só pela pressa de chegar logo em casa para não fazer absolutamente nada? Perdi o nascer e a despedida do sol para cumprir uma agenda trivial que poderia sim ter sido postergada. Quantas vezes eu pensei em telefonar para a amiga e simplesmente jogar conversa fora e falar da importância dela na minha vida? Mas o medo de parecer afetuosa em excesso ou até mesmo de incomodá-la com minha declaração de amizade impediram tal atitude. 

E perdi o número de ocasiões em que deveria ter dito as palavras mágicas: eu te amo, muito obrigada, por favor, volte sempre, tu és essencial. Mas calei a voz para não demonstrar um excesso de carinho e de compreensão. Algumas vezes, o medo de ser sincera esbarra na sensação estúpida de continuar sendo uma pessoa limitada, medíocre e que carrega um certo receio do julgamento dos terceiros. Como se estes, tão apressados em nos julgar, tivessem vivido partes cruéis da nossa vida ou ajudassem no pagamento dos boletos. 

Depois de alguns episódios em que a minha tolerância foi posta à prova e em que me vi obrigada a ceder um pouquinho pelo bem de outros, entendi que, mesmo aos 61 anos, ainda é tempo de mudar. Após um período de desafio de saúde, em que todo o dia eu acordo sonhando com reversão de expectativa, compreendi que, mesmo aos 61 anos, ainda é tempo de mudar. 

De aproveitar melhor os dias, mesmo os nublados, e fazer as noites renderem ao máximo, seja estendendo o sono, otimizando a leitura, escrevendo ou vendo filmes. De enxergar vida pulsante, mesmo trancada no pequeno apartamento e observando a vida pela janela da sala. De acreditar que tudo é possível, que nada é em vão e que a vida é muito maior. Por isso, ainda é tempo de mudar.

Autor

Márcia Martins

Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Escola de Comunicação, Artes e Design (Famecos) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editorias de Economia e Geral, e em assessorias de Comunicação Social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em diversas antologias, ex-diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors) e presidenta do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA) na gestão 2019/2021. E-mail para contato: [email protected]
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