As manifestações contra os aumentos de tarifas, passagens de ônibus, mais dinheiro para educação e saúde, em vez de reformas em estádios para a Copa 2014, e todas as outras que se seguiram depois de junho do ano passado no País são justas. Sim, extremamente justas. Todos têm o direito de protestar. De pedir e lutar por melhores qualidades de vida. Quem não deseja viver em condições mais adequadas? Quem não gostaria de pagar menos imposto? Quem não deseja mais investimentos em educação e saúde? Só um perturbado mentalmente! Só um doido! Mas quando estas mobilizações extrapolam o limite da civilidade, creio (e defendo) que é preciso rever as estratégias.
Porque a morte estúpida do cinegrafista da Rede Bandeirantes, Santiago Andrade, 49 anos, ferido durante um confronto entre policiais e manifestantes em meio a um protesto contra o aumento da passagem de ônibus no Rio de Janeiro no dia 6 de fevereiro, foge a qualquer ato pacífico por melhores condições de vida. É reflexo de mentes perturbadas e doidas. Pessoas que vão armadas às mobilizações não podem falar de paz. E recorro a um texto de um dos meus livros preferidos, O Ovo Apunhalado, de Caio Fernando Abreu:
– Alfa é meu nome, disse.
E ele perguntou:
– Esse é teu nome de guerra?
E ele respondeu:
– Não. Esse é meu nome de paz.
Não se trata de ficar aqui dizendo que Santiago é o único mártir destes atos que agitam o Brasil desde a metade de 2013. Outros já morreram e alguns inclusive no exercício da profissão, como a gari, no Pará. Nem exigir que a morte de Santiago seja exaustivamente averiguada porque o rojão partiu supostamente, de um manifestante, e não da polícia. Porque todas as mortes em confusões devem ser esclarecidas. Nem dizer que a morte de Santiago fere a tal liberdade de imprensa, que só é lembrada pelos grandes donos da mídia quando lhe interessam. E menos ainda que a morte seja o resultado de uma luta em nome da população. Eu não autorizei ninguém a matar em meu nome.
Talvez a morte de Santiago prove, o que já vem sendo defendido há algum tempo: os profissionais da imprensa precisam estar melhores equipados para trabalhar com segurança em eventos conturbados. Talvez a morte do cinegrafista sirva para cutucar os manifestantes a brigar por melhores condições de vida sem tirar a vida de ninguém, principalmente quem não tem nada com isso. Talvez a morte do profissional da Bandeirantes, que será cremado ao meio-dia desta quinta-feira no Rio de Janeiro, incentive a todos participantes de qualquer protesto que exponham a sua face, limpa, sem máscaras e esconderijos. Mas, principalmente, que a morte motive os da paz a expulsar os baderneiros das suas fileiras.
Como já sentenciou Marcos Valle, na música Viola Enluarada, a mão que toca um violão se for preciso faz a guerra, mata o mundo, fere a terra. E por isso, porque a mão que acaricia também é a mão que mata e espanta, temo pela integridade de todos os meus colegas obrigados a trabalhar nestes protestos. Sem a cobertura da imprensa, com todos os defeitos que ela ainda teima em apresentar, as manifestações não teriam surtido tanto efeito. Que todos pensem nisso na próxima vez que levar um rojão ou qualquer outra arma letal às manifestações pacíficas.
E encerro com um trecho da carta escrita pela filha de Santiago, assim que ela soube da morte cerebral do cinegrafista: “esta noite eu passei no hospital me despedindo. Só eu e ele. Deitada em seu ombro, tivemos tempo de conversar sobre muitos assuntos, pedi perdão pelas minhas falhas e prometi seguir de cabeça erguida e cuidar da minha mãe e meus avós. Ele estava quentinho e sereno. Éramos só nós dois, pai e filha, na despedida mais linda que eu poderia ter. E ele também se despediu. Eu sou Vanessa Andrade, tenho 29 anos e os anjinhos do céu acabam de ganhar um pai”.
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