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Alguns leitores, algumas palavras

Estive semana passada em São Paulo, revi parte da família e participei do encontro de ex-colegas da Caetano de Campos, coisa que acontece há …

Estive semana passada em São Paulo, revi parte da família e participei do encontro de ex-colegas da Caetano de Campos, coisa que acontece há muito. Ney, a cunhada, e Eduardo, o irmão, hospedaram-me. No computador deles, escrevi a crônica “Sampa” que deveria estar aqui. Deveria, se eu a tivesse salvo.

Enquanto maldizia a necessidade de escrever outra, foram chegando e-mails sobre a crônica anterior – Dois ícones –, na qual misturei um relógio Ansonia, a tartaruguinha Touché, coisas do terceiro mundo, o tempo, a eternidade, a tentativa de fazer algo e melodias de Tchaikovsky.

Entre outras coisas, esses e-mails vieram recheados de memórias e gentilezas de leitores amigos. Por minha conta, aproveitei as gentilezas e dedico a eles esta crônica que eles escreveram. Obrigado.

Ayrton José Gonçalves, professor e escritor:
“Ao longo da vida (já vou para ‘quatre-vingt’ em 2009), entre outras manias, fui colecionador de relógios de parede (wall clocks), cheguei a ter 18, vários Ansonia, cuja história no Brasil, na primeira oportunidade, contarei a você. Com os problemas da minha mulher (era ela que dava corda em todos eles), fui me desfazendo deles, dando de presente a amigos e parentes. Hoje restam três – um deles Ansonia –, que ficarão pra quem quiser quando eu me for. Eles continuam a diariamente me lembrar que o tempo não pára, nem quando eu esqueço de dar-lhes corda… Tartaruga, eu nunca tive…”

Ademar Moura, vizinho e amigo:
“Mário, achei coincidência não só a marca de seu relógio com o que ostentava a parede de minha casa na infância, como os seus comentários refletem a mesma ligação que tive… Quando minha mãe morreu, meu pai não suportou mais ouvir os badalos do relógio e o vendeu por preço vil a um colecionador… aí ficou a saudade. Foi assim que fiz uma letra para lembrá-lo (anexa).”

(Parte inicial):

“Relógio de Parede

Tempo incontido, marcha infinita, ainda que tudo renove.

Conformo-me no conceito que ao tempo diz respeito.

Entre tudo abstrato, conta o fato consumado, vida ou morte, alegre ou triste, tem no tempo o seu limite…”

Circe Aguiar, professora e amiga (põe amizade nisso):
“Mario, toda semana troco a quotation da minha assinatura. Essa semana é sua: “…. a vida pede urgência, intensidade, profundidade… face à eternidade, a gente não existe… só a ação pode, talvez, nos justificar.  Mario de Almeida”.
Adorei tudo. bjx.”

Christina Lyra, jornalista presente na crônica anterior e amiga de muitos anteriores:

“Oi querido, à tua tartaruga e ao teu relógio acrescento “minha” obra completa de Machado de Assis, encadernada em couro vermelho todo rachado. Sempre que folheio um livro em que algumas páginas já começam a se esfarelar, imagino quantas gerações eles ainda vão seduzir. Já é muita “eternidade”, né não?”

Gustavo Borges Lopes, amigo, filho do amigo Borjalo. Quando ficou órfão, elegi-o amigo duas vezes:
“Mario, “elitista é a mãe” me fez lembrar uma passagem do então deputado Carlos Lacerda. Quem me contou foi Hugo Levy, amigo-irmão, integrante da equipe de Lacerda:

Pinga-fogo na Câmara. Um jovem deputado da ala-esquerda do PTB interpela Lacerda:

– “Ilustre deputado, o senhor que é de direita…”

– Lacerda corta o rapaz com a seguinte rajada:
– “Direita é a mãe!… Ou ela não é?”

Gargalhada geral, até do próprio petebista. Abração”.

Maristela Bairros, jornalista gaúcha, colega aqui em Coletiva, amiga virtual, até parece amiga de infância:
“Tempo com poesia.

Mario. Poucas coisas na vida são naturalmente poéticas como o relógio de pêndulo. Tive um também, de parede, mas ele nunca ficava com hora certa, o danado. Também me intriga esta quase perenidade das tartarugas. Só um alerta, amigo: cuidado para não terminar se atrapalhando e dando alface para Ansonia e corda em Touché. Afinal, nestes tempos de internet, é tanta coisa a fazer. Beijo”.

Essa advertência da Maris para não dar “alface para Ansonia e corda em Touché” até parece coisa de vidente. Outro dia, mexendo nos bolsos, na caixa de uma padaria, aconteceu:

– Acho que perdi os óculos.

– Estão nos seus olhos.

Inté.

PS.
Crônica já entregue, hoje segunda-feira, quando nosso editor, Vieira da Cunha, avisou-me que havia entrado, também hoje, um comentário do colega e amigo virtual José Fraga. Achando que não dava para desperdiçar um comentário de alguém como o Fraga, o ego inflado exigiu divulgação:

“Belezura

O excepcional nas tuas memórias, Mario, é que sempre tratam muito além dos assuntos tratados. Mesmo sem ser fumante ou marqueteiro, digo que é um raro prazer.”
José Guaraci Fraga – Porto Alegre/RS/Brasil.

Imagem

Autor

Mario de Almeida

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