Alma cheia

Por José Antônio Moraes de Oliveira

"Outra vez te revejo,

Cidade de minha infância, pavorosamente perdida...

Cidade triste e alegre, outra vez sonho de alma cheia..."

(Alvaro de Campos)

O grande poeta português repetia que só existe um caminho de chegar a Lisboa e desfrutar da mesma visão que aguardava os navegadores de regresso do outro lado do Mundo - o Viajante deve navegar pelo estuário do Rio Tejo, passando respeitosamente diante do Forte de São João da Barra, construído pelo rei D. João III e que viria a ser a última defesa de Lisboa contra os invasores.

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No entanto, um atrevido Viajante poderia se surpreender ao encontrar outros caminhos para descobrir Lisboa. Como aqueles trilhados pelos conquistadores celtas que desciam extremos Norte-Sul de Portugal, partindo da fronteira com a Espanha, até o Algarve, no Extremo Sul. Atualmente, este caminho tem o nome de A1, a moderna autoestrada que atravessa paisagens de montanhas e vales, chegando e partindo de Lisboa.

Mais do que uma jornada pela história lusa, é um pouco conhecido, mas precioso roteiro gastronômico, que permite que o Viajante prove a autêntica culinária camponesa de Portugal.

Para quem tem pressa, este caminho de 700 quilômetros, desde Chaves até o Faro podem ser cobertos em dois ou três dias, o que seria não aconselhado pelo poeta, que dizia:

"O objetivo não é chegar, e sim, saborear a jornada."

A jornada começa em Trás-os-Montes, terra de castanheiras e de mulheres vestindo seus mantos negros. Cruza-se os rios Douro, Dão e Tejo, seguindo as pegadas dos antigos povos que desciam do gelado Norte. Aqui e ali, aldeiotas de cartão-postal, com acolhedoras tabernas e feiras de produtos camponeses, que não estão no Guia Michelin ou na Internet.                     

Estas paradas gratificantes devem ser demoradas, atrasando os planos de se seguir adiante. No Douro, diz-se necessária uma escala em Pinhão, entre o Porto e a fronteira com a Espanha. O Viajante chega ao domínio vinícola que tem carta de origem datada de 1756. Do convés dos barcos Rabelo que sobem e descem o Rio Douro, desfruta-se uma visão única - encostas simetricamente cobertas por vinhedos de quintas seculares: Quinta do Castro, Quinta de Santa Bárbara, Quinta do Vallado.

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Mesmo os desinteressados por História se encantarão com uma visita a Provesende, antiga parada dos peregrinos que, desde a Idade Média subiam o Caminho Português para Santiago de Compostela. Um paraíso para amantes de arquitetura e história - aqui um cemitério romano, ali, uma bem conservada capela românica, mais adiante, fontes barrocas e ruas povoadas por mansões manuelinas, muitas listadas no Airbnb na categoria de pousadas cinco estrelas.

O Caminho Português era popular entre os peregrinos que vinham da Ibérica mediterrânea, mais tarde ofuscado pelo Caminho Francês, que sai de Roncesvalles. Portugal fez um meticuloso trabalho de recuperação destes antigos caminhos, como o da Rota Costeira, do Porto até Vila Nova de Cerveira, passando por lugares com nomes sonoros, como Pouso do Conde, Póvoa de Varzim, Caminho Matosinho, Viana do Castelo ou Vila Castelar. São 150 quilômetros cruzando por bosques de corticeiras, calçadas de pedra, aquedutos e igrejas seculares. Uma visão que remete à antiga Portus Cale romana. Antes de encerrar a viagem, é obrigatória uma prolongada visita à cidade do Porto. Os locais garantem que só quem conhece as dez grandes atrações da cidade pode dizer que realmente esteve no Porto.

Na lista, o Mosteiro da Serra do Pilar, em Vila Nova de Gaia e a estação de São Bento, uma das mais belas terminais ferroviárias art-noveau da Europa. Mais uma escala, esta para retomar o fôlego - a Livraria Lello, que era a favorita de Fernando Pessoa e fonte de inspiração para a novelista J.K.Rolling.

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Antes de partir, um derradeiro ritual será exigido ao Viajante: saborear a Francesinha, prato típico do Porto, uma versão do Croque Monsieur francês. São duas fatias de pão com presunto curado, linguiça e um ovo frito, tudo coberto com muito queijo derretido e molho de cerveja com especiarias. Ao lado, uma dose certa e farta de batatinhas fritas. Então, como glosava o poeta, o Viajante pode ir para casa com a alma cheia.

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Autor
José Antônio Moraes de Oliveira é formado em Jornalismo e Filosofia. Atuou em jornal em A Hora, Jornal do Comércio e Correio do Povo. Trocou o jornalismo por publicidade, redigindo anúncios na MPM Propaganda. Diretor de contas internacionais, morou por anos na ponte aérea Porto Alegre/ São Paulo/ Rio/Miami/New York. Foi diretor de Comunicação do Grupo Iochpe e co-fundador do Cenp (Conselho Executivo das Normas-Padrão). Atualmente, reside na Serra gaúcha.

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