
“Não existe presente nem futuro – apenas o passado, acontecendo agora e sempre se repetindo.”
Ricardo Güiraldes.
Ele foi o autor de uma antológica série de contos e poemas sobre os hábitos, lendas e carências do homem rural na Argentina do século dezenove. E poucos anos antes de morrer prematuramente, foi capaz de produzir um dos grandes textos da literatura latino-americana. Mesmo assim, Ricardo Güiraldes nunca se considerou como um verdadeiro escritor, mas apenas um cronista da vida no pampa.
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Ele começou a escrever Don Segundo Sombra em Paris e a concluiu quando de regresso a um obscuro povoado, perdido no pampa argentino, onde havia passado uma infância feliz.
A novela conta a jornada de Fabio Cáceres, que atravessa as durezas da vida campeira até se transformar em uma espécie de herói de si mesmo. Quando publicada em 1926, foi mal recebida pela crítica, por retomar o registro poético, rejeitado pelo modernismo então em voga em Buenos Aires. Segundo estudiosos, Ricardo Güiraldes construiu em Fabio Cáceres um arquétipo do homem do campo, prisioneiro das tradições e costumes e que não consegue se inserir na vida moderna.
Semelhante ao clássico Martin Fierro, de José Hernandez, a novela eleva a figura do gaúcho a um nível místico, quase legendário. Os ensinamentos que o veterano Don Segundo repassa ao jovem Fábio sinalizam os valores de identidade, honra, lealdade e respeito ao próximo. Distante de ser autobiográfica, a novela de Ricardo Güiraldes desenha um paralelo – consciente ou não – entre os sofrimentos de Fabio Cáceres e os últimos anos de vida do autor, que sofre de doença incurável e dolorosa, que o leva à morte com apenas 41 anos.
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O final de Don Segundo Sombra é citado como um dos mais poéticos momentos da literatura latina. Mostra quando Fábio sente que está chegando sua hora mais triste, da separação definitiva de seu padrinho, que o ensinará como viver a vida. Junto à uma lagoa, ele recita:
“Seu corpo era grande, com articulações ossudas como as de um potro, no peito largo uma alma de proa, as mãos grossas e coriáceas como conchas peludas. A tez era indiana, os olhos erguidos para as têmporas. Ao conversar, jogava para trás o chapéu negro de aba estreita, mostrando a franja cortada como a crina de um cavalo chucro”.
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