Colunas

Alumbramento

Entrar num novo ano é fácil, difícil é colocar a data certa nos primeiros cheques. M.A. Mal fechou o pequeno portão de ferro junto …

Entrar num novo ano é fácil, difícil é colocar a data certa nos primeiros cheques.

M.A.

Mal fechou o pequeno portão de ferro junto à calçada, deu um giro de corpo e, como Pelé comemorando gol, deu um salto com o punho direito fechado.

Era noite, estrelas e uma lua cheia pareciam fazer parte daquela comemoração que exigia, ainda, uns pontapés no vento que seus passos encontravam pela frente. Um casal idoso ia passar por ele e resolveu colocar menos de minuto de recato naquele corpo que era só explosão.

Corpo sossegado, cabeça fervia. Supôs-se poucos anos adiante e inventou, no seu rosto, um pequeno cavanhaque triangular. Apagou rápido a imagem de bode que lhe surgiu na mente.

Que tal uma barba bem aparada no rosto que, então, era jardim de espinhas? Nada feito, projetou-se de cara limpa, bem escanhoada, deixou em paz suas fartas melenas e encerrou sua fantasia facial. Estava satisfeito e feliz com o que era e aparentava.

Voltou-se para dentro e reconduziu, para si mesmo, aqueles sentimentos desencontrados, mas não antagônicos, que começara a sentir tão recentes quanto intensos, mas que jamais suspeitara que pudessem deslocar de tal forma o eixo de sua existência ou aquilo que supunha ser o eixo ou, pelo menos, o repositório maior de sua vivência e de seus anseios. Sentia tudo confuso, difícil de explicar ou mesmo entender, ele parecia outra pessoa procurando encontrar a pessoa que era ele mesmo.

Viu, impassível, passar o ônibus que o levaria para casa, mas não sabia como carregar consigo, num veículo coletivo, aquele sentimento absolutamente novo e pessoal. Entrar num coletivo da maneira como se sentia era uma indelicadeza, uma grosseria para com os pobres mortais que seriam seus companheiros de trajeto. Impossível doar ou mesmo dividir um mágico sentimento, uma vivência única, inenarrável.

Bem mais tarde, já passados outros três veículos de itinerários semelhantes, com um gesto de cabeça de quem se despede da lua e das estrelas, entra num ônibus e se reintegra ao real.

A cédula para pagar a passagem era banal e concreta, assim como o troco que entrou no seu bolso sem ser conferido.

O agora estava distante e ao colocar o troco no bolso apalpou sua coxa, era a certeza de que estava acordado.

Chegou em casa, foi direto para o quarto, trocou-se para dormir, deitou-se e, cabeça no travesseiro, ficou olhando para o teto invisível até que conseguiu dormir.

Inda não tinha completado 15 anos, mas acabara de dar o primeiro beijo na sua primeira namorada.

 

Vitrine (comentários sobre a crônica anterior)

Certa época, eu era diretor de criação da Mcann Rio e morava no Leme (antes de te conhecer na Globo) e por lá fazia minhas capturas de corações maravilhosos seguidos por corpos e pernas incríveis… Morava num apartamento legal de frente pro mar, mas pequeno… Uma noite estava sentado do lado de fora da Fiorentina com umas amigas, todas atrizes bonitas, charmosas, quando um senhor de terno, bem arrumado, com aspecto de um senhor com ótima formação moral e dignidade, afora estar completamente bêbado (que é o meu world work …. ) Mas voltando ao senhor bêbado posto pra fora da Fiorentina… ouvi seu gritos de revolta contra o gerente e os leões de chácara que o colocaram pra fora, que eu corri pra socorrer, ele falou magoado e desvencilhando-se dos leões e berrando pro gerente: “Vocês, donos de bar…..fazem os bêbados mas não aturam os bêbados!” Eu o abracei e o levei ao meu carro pra levá-lo à casa dele, que era um casarão no Cosme Velho e, na viagem, ele recomposto me disse que estava comemorando os 10 anos em que sua filha fora banida pelos milicos do Brasil… E ele saíra aquele dia pra tomar um porre em homenagem à sua querida filha… Guardei pra sempre e conto vez ou outra quando faço algum show com meu violão e o meu grupo que são todos da pesada e velhos…..claro… beijos… Luiz (Orquestra) Executivo, artista, São Paulo.

Mario, suas crônicas sem cunho político são um primor. Um forte abraço. Celso (Roberti), São Paulo.

Querido Mario, grato pelo presente que você nos deu neste 2010, repleto de poesia, de filosofia, de memórias, que preencheram a nossa vida de muita beleza e esperança. Um grande abraço. Modesto Carvalhosa, advogado, São Paulo

Autor

Mario de Almeida

Compartilhar:

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.