João Ramos era um homem diferente. Detestava conversa fiada, gostava de domar garanhões e era capaz de parar um cachorro bravo só com o olhar. Andava sempre com uma boina basca e um lenço maragato, dos quais nunca se apartava – nem nos velórios ou quando tomava banho nas águas geladas do Rio Camaquã.
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Ramos não tinha paciência com crianças e mal respondia os buenos dias dos peões. Havia algo de misterioso nele – como seu hábito de sair a galope para os lados da Lagoa dos Patos e só voltar de madrugada, quando todo mundo já estava no segundo sono. A dar ouvidos ao Ermenegildo, o peão meio-indio que sabia da vida de todos, João Ramos era um mestre em hechizos. Quando era preciso acudir alguém mordido por jararaca, ele esmagava um escorpião com as mãos para retirar o veneno do ferrão.
“- Veneno mata veneno”, rosnava.
Por estas e outras é que as pessoas preferiam ficar longe do meu tio João Ramos.
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Para equilibrar as coisas, tia América, sua mulher, era a pessoa mais suave e querida da fazenda. Gordota e cheia de sorrisos, era famosa por seus doces-em-calda. Abóbora, batata-doce, figo, pera, chuchu, laranja, goiaba – qualquer fruta madura virava delícia nos panelões da tia América.
Muitas vezes, eram tres ou quatro panelas no fogão a lenha, que recebiam conchadas de açúcar cristal. Depois de horas e horas no fogo, os doces passavam a noite esfriando, antes de serem guardados em vidros, fechados com cera de abelha e arrumados com simetria no armário da despensa.
Sempre que percebia a porta destrancada, eu ia espiar as compotas de doces. Mal a tia América me via rondando por ali, enchia uma tijela do mais açucarado dos doces. E ficava por perto, aguardando os elogios. E quando os recebia, sorria de felicidade, me abraçava com efusão, apertando meu rosto entre seus grandes seios macios.
Lá no terreiro, sentindo de longe o perfume dos doces, o velho índio resmungava:
“- Quanto mais amargo o homem, mais doce a mulher…”
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Naqueles tempos, haviam outros acontecimentos no Passo Grande, além das compotas da tia América. Eu ainda sentia o doce de figo na boca, quando o guri Edu chegou esbaforido, gritando que dois garanhões haviam caído nas barrancas do rio. Foi um alarido só. Os homens cercaram o Edu, que, choromingando, alertava que os cavalos estavam enredados nas cercas de arame farpado.
Sem dizer palavra, João Ramos levantou-se de um golpe. Entrou nas cocheiras e saiu pelos fundos, galopando sem alarido pela grama alta. Quando os peões montaram, ele já havia sumido além dos capões. Era quase noite, quando voltaram. Os homens tinham cara fechada e comeram em silêncio. Quando eu perguntei sobre o que tinha acontecido, não responderam e o avô me mandou para a cama.
Não dormi direito. De manhã cedo, fui até a mangueira grande para contar os cavalos. Estavam quase todos, menos os dois garanhões zainos, o de rodeio do avô e o de montaria do João Ramos.
Sentado em um cepo no galpão dos peões, meu tio limpava uma garrucha niquelada.
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